sábado, 26 de fevereiro de 2022

A cratera da Guanabara

 


Eu acordava as 5:30 para ir para a escola Augusto Severo, em Petrópolis. Certo dia estava chovendo muito e minha mãe disse: “Hoje vocês não vão, tá chovendo demais e é chuva com vento, vocês vão chegar lá muito molhadas, eu tô sem dinheiro para vocês irem de ônibus, podem voltar a dormir”. Foi uma delícia voltar a dormir no friozinho de tempo chuvoso. Quando acordei almocei e me organizei para ir para educação física que era a tarde. O tempo estava nublado e frio mas não chovia.

Botei os tênis e fui em direção a cidade alta pela rua Guanabara. Esse caminho era melhor quando estava chovendo. Passei pela panificadora, desci a ladeira da Bacia e continuei pela Guanabara até a escola Nossa Senhora Aparecida. Nesse ponto tive um susto... Uma cratera enorme na minha frente tinha engolido várias casas. Tinha muita gente olhando a destruição.

Fui até a borda da cratera, tinha de tudo cama, tijolos, telhas e água descendo até o mar. A areia que se acumulou na via costeira era barrenta, deixando a praia onde a lama desembocava completamente laranja. Eu nunca tinha visto um desastre, nem imaginava que isso tivesse acontecido durante a madrugada, quando as pessoas estavam dormindo. A água que desceu do morro se tornou um rio e esse rio com, a correnteza da descida das ladeiras, chegou na Guanabara com muita força, derrubou o meio-fio e desceu em direção ao mar derrubando tudo que alcançava pelo caminho.

Eu parei e olhei tudo aquilo mas a coisa que me deixou mais abismada foi o mar estava laranja. Com ondas imensas que batiam no paredão, cheio de lixo, madeira, móveis, folhas. Até árvores desceram derrubando tudo. Não dava para ir para escola. Eu teria que subir até a rua Camaragibe para tentar passar, já que o buraco ia até a Atalaia. Desisti de ir para escola, aproveitei e desci até a praia. Queria ver o buraco de frente. Desci por um caminho que tinha acesso à praia na frente da escola Nossa Senhora Aparecida

Atravessei a via costeira e fiquei segurando no parapeito, olhando a água que ainda descia com força. Na verdade uma mistura de água da chuva que ainda estava acumulada e esgoto formavam um rio que desembocava no mar. Nesse rio vinha descendo uma cama dessas de madeira de solteiro fiquei ali parada observando a cama descer, percebi que, na parte de cima do morro, estava chovendo de novo e a água começou a descer com força, jogando a cama no mar que, por sua vez, com ondas de barro espesso jogou ela no paredão da praia, desmontando a cama com uma só pancada.

Aquilo foi lindo e assustador.

Nessa hora chegou um carro do corpo de bombeiros com Cirene e tudo. Parecia filme. Uns homens com colete amarelo pediram para eu e outras pessoas se afastar por causa do risco de desabamento de mais duas casas. Diziam: “Vamos, se afastem, está chovendo, vai desabar mais casas!”. Aí eu me afastei, mas, antes, olhei para a cratera e não sei como descrever sua aparência mas vamos lá.

Era enorme. De uma altura gigantesca. Haviam casas inteiras com piso e tudo na beirada da cratera mas que não tinham desabado ainda. Tinha, na parte de cima concretada, um pedaço da pista de asfalto que era da Guanabara. Com um espaçamento de uns cem metros de um lado a outro. O resto desceu. A segunda camada era de areia bem branquinha, areia de praia. E por último vinha o barro, bem vermelho, que deixou o mar com uma cor laranja e a água muito grossa e com uma espuma feia, estranha. Não parecia o mar. No veio de água que descia tinha muita madeira, talvez de cercas, talvez de madeiramento das casas que desabaram e uma certa quantidade de lixo.

Saí dali. Os carros de bombeiro chegaram aos montes, polícia e homens com capacete de construção e coletes amarelos. Estavam tão abismados quanto eu. Saí. Começou a chover forte de novo. Pensei em ir pra casa pela via costeira. Desisti. Subi a escadaria antiga, fui pra casa.

Agradecida a Deus por não ter sido minha casa e pensando: “imagina!! Essas pessoas estavam dormindo como eu e, de repente, as casas delas desabaram. Agora não tem comida, documentos, fotos, móveis!! Foi embora tudo”. Não soube se alguém morreu, não procurei saber. Era adolescente foi por volta de 1990, não sei exatamente o ano. Lembro apenas da sensação de impotência perante as forças da natureza.

Infelizmente não existem fotos na Internet desse primeiro desastre, só temos do segundo. Sim! Tivemos esse pesadelo de novo. Em 2014, ano da copa do Brasil, Natal sediando jogos das seleções mundiais; tudo aconteceu de novo. Dessa vez, amplamente divulgado nos jornais nacionais e mundiais. Mas não fui ver. É muito triste saber que poderia ter sido evitado.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Meus mestres


Eu escrevo do jeito que falo. Não como escritora, com todos os acentos gráficos ou como poeta e suas rimas milimétricas. Escrevo porque um dia aprendi com Dona Antônia, minha professora primária; Seu Severino, meu professor querido que me ensinou as pronúncias e as classes gramaticais da nossa rica língua portuguesa. Escrevo, como diria professora Leni, melhor professora de português do mundo, “escrevo vulgarmente”.

Sendo Filha de pais semi-analfabetos, fui alfabetizada já na primeira infância. Não que eu soubesse ler. Eu simplesmente fotografava os textos com meu olhos e podia explanar suavemente na frente de qualquer um. Minha professora da segunda série percebeu quando comecei a ler "Lá vai São Francisco pelo caminho, de pés descalços…". 

Ela achou intrigante que eu estivesse lendo com tamanha rapidez e me mostrou uma palavra no texto. – Soletre Francisco – Eu lembrei de cada letra e fui cantando. “F-r-a-n” ela mandou eu parar. Disse você não sabe ler. Sua inteligência é diferente mas eu quero que você aprenda a ler de verdade.

Me deu um Gibi da Mônica e disse: “você passou de ano. Mas cuidado, não diga para ninguém que você lê desse jeito”. Não disse. Aos 9 anos fui apresentada ao professor Severino. Ele era realmente um educador ímpar. Tinha muito respeito por cada aluno, falando conosco como adultos, não utilizava a língua culta comum das escolas da época. Talvez fosse discípulo de Paulo Freire. 

Quando percebi estava lendo. Lia tudo. – Como assim, o nome desse bairro é Mãe Luiza? Mãe de quem era essa Luiza? – Eu ficava horas olhando as letras nos livros de enciclopédia que tinha em casa. Tudo escrito de carreirinha. Tudo lindo. Eu aprendi a ler escrevendo. Já escrevia bem aos 9 anos e quando, de repente, me percebi lendo. Foi louco. Lia tudo, placas, livros, revistas.

Por fim, mas não menos importante, veio a professora Leni. Muito forte. Muito áspera. Muito humana. Me ensinou a conjugar os verbos, a fazer versos, construir orações. Com ela tudo tinha que ser perfeito da caligrafia à pronúncia.

Era forte feito uma Rocha, mas um dia ela chorou em sala de aula com um texto. O título desse texto era: Será que minha cor vai sujar a água? Quando ela terminou de ler, estava chorando, mostrando o quão humana ela era. Esses foram meus principais professores. Todos fazem parte da minha lembrança e estão vivos no meu coração. 

Essa é minha humilde forma de agradecer as pessoas tão essenciais na vida de cada um de nós, os professores.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

O BOCA de forno de lixo


Hoje ao chegar no hospital para trabalhar, ouço minhas colegas falando de um blogueiro aqui de Natal que teve a audácia de colocar em seu blog que o 4° andar do hospital Walfredo Gurgel é apelidado de" forno do lixo".

Fiquei muito incomodada com esse termo. Primeiro por nunca ter ouvido essa expressão ao que se refere ao Walfredo. Já ouvi muitas coisas inclusive “matadouro”, sendo que a maioria dos pacientes que dão entrada são graves ou gravíssimos, já que o hospital é referência para esses pacientes. Por isso o número alto de mortalidade no hospital.

Será que ao menos essa pessoa um dia precisou do Walfredo? Será que alguém de sua família um dia precisou dos nossos serviços? Ou será que era apenas uma crítica ao governo e se tornou uma ofensa a todos os mais de 3mil funcionários do hospital, ao chamar um andar desse hospital de "forno do lixo"?

Caso ele não saiba, e, com certeza não sabe, trabalhamos em condições insalubres sim. Ganhamos pouco sim. É culpa da gestão sim. Mas de todas as gestões desde Wilma, Rosalba, passamos pelo pior governador que esse estado já teve, que sucateou todo o serviço público com o intuito de privatizar, um tal de Robson. Até que veio Fátima que tem colocado nosso salário em dia, já que o outro deixou 3 folhas em atraso.

No entanto, nunca tratamos setor nenhum desse hospital como “forno do lixo”. Pois nossos pacientes não são lixo. Ao contrário merecem respeito, somos a única saída no estado para pacientes queimados, politraumatizados, vítimas de AVC, Neurocirurgia, infarto… O 4°andar em questão é a enfermaria onde cuidamos, dentro de nossas possibilidades, os pacientes vítimas de trauma e pacientes restritos de liberdade.

Talvez esse senhor não saiba que, aqui, não importa se o paciente é morador de rua e levou um tiro ou turista que se machucou em acidente nas dunas. Tratamos todos igualmente. Ricos, pobres, apenados, políticos, professores, alunos, prostitutas... Quando chega na porta do Walfredo, é tratado como paciente.

Sim!! E vamos fazer outra rifa. Se quiser divulgar, fique à vontade.

Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Praia de mãe Luiza

Eu, desde muito pequena tive contato com o mar, ia à praia com meus pais e irmãos. Era normal ficava brincando na areia, fazendo castelinhos, casinha de areia com o pé, cavava um buraco e dizia que era uma piscina ou brincava com a bola. Na hora de voltar, me banhava no raso e ia pra casa, sempre muito cedo por causa do sol.

Só podia ficar na praia até as 8 horas. Eu era muito branca e fiquei com bolhas uma vez. Tive febre e fiquei internada. O médico disse que não devia mais ficar exposta no sol por muito tempo, então a praia não erra um lugar muito comum pra mim. Mesmo morando em Mãe Luiza, bem próximo do mar. Depois fui morar em Morro Branco e fiquei mais distante, então lembrava pouco ou nada do mar. Agora éramos 6 filhos, voltamos pra mãe Luiza e eu só pensava em voltar à praia.

Papai chegou cedo do trabalho. Ele sempre estava trabalhando. Uns dias na CAERN, outros fazendo biscates, consertando fogão, pintando. Ele trabalhava em várias casas, fazendo pequenos serviços, é o que hoje chamamos de marido de aluguel hoje em dia. Sabia mexer com elétrica e hidráulica, então pra ele não faltava trabalho e sempre estava com um pouco de dinheiro. Às vezes era só pra botar uma tomada ou pendurar quadros na parede, chamavam ele.

Fazia alguns dias que tínhamos voltado pra casa de Mãe Luiza, no Barro Duro e estávamos esperando aquele chamado. Papai parece que adivinhou. – Vamos pra praia? – Pronto. Corremos pro quarto, botei um maiô azul, o único que tinha, um shorts e estava pronta. Papai pegou Léo e Lindomar e botou no carro de mão e fomos para a praia.

Era muito perto de casa. Atravessamos a via costeira e começamos a correr até o mar. Papai, tranquilo, levando os pequenos no carro de mão e os quatro mais velhos disputando quem iria chegar primeiro. Eu corri ao máximo. Chega dava pra sentir meu coração batendo forte. Minhas bochechas vermelhas. Cheguei na água, parei para olhar meus irmãos que já estavam no mar.

Me sentei na areia, era grossa e transparente. Limpa. Eu peguei um grão, uma pedrinha muito transparente fiquei contemplando ela, imaginando aquela pedra sendo um planeta cheio de pessoas morando dentro. Eu tinha visto na TV que tudo era feito de átomos, até as coisas menores eram formadas por células e átomos.

Eu concentrada naquela pedrinha, papai chega. – Você não vai tomar banho? – Eu dei de ombros. Tanto faz, mas quando olhei pra ele e percebi ao redor, vi o quanto aquela praia era bonita. Tinha umas pedras pretas e altas na lateral e um conjunto de arrecifes por toda a extensão da praia, deixando apenas uma pequena entrada para a água sair, transformando em pocinhos, pequenas piscinas naturais. Meus irmãos pulando na água se divertindo e eu na areia concentrada no cheiro de maresia que vinha com um vento calmo, mas que balançava meus cabelos. Eu lembrei de todas as praias que eu tinha visto na televisão e pensei – Essa é a praia mais linda do mundo.

O céu de um azul-escuro de fim de tarde, as pedras escuras e o mar de um azul intenso e brilhante. Resolvi tomar banho entrei no poço maior, a água muito salgada me deixou leve. Comecei a pular como meus irmãos, tentar nadar, prendi o fôlego, mergulhei. O som do mar ficava no ouvido fazendo um barulho gostoso de ouvir. Subi respirei desci de novo, muito boa essa sensação.

A água do mar nos deixa leve. Fiquei ali, aprendendo a boiar com meus irmãos, sendo reapresentada ao mar. Não pretendia voltar pra casa nem tão cedo, papai pegou a pá e pegou um pouco da areia muito grossa no lugar que eu estava sentada a pouco e disse: – Vamos embora. Começou a empurrar o carro e nós corremos atrás dele. Me despedi do mar pensando o quanto eu era privilegiada de morar tão perto dele.


Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

A ladeira


Eu estudava na Escola Estadual Augusto Severo, que ficava em Petrópolis. Na procura por um ensino melhor, uma escola com um bom aprendizado nos impulsionava. Na época, no bairro, não tinha escola ginasial da 5° a 8° série. Então, todos os dias eu descia a ladeira para ir à escola e subia na volta. A ladeira de Mãe Luiza é muito alta para qualquer pessoa hoje em dia, mas antigamente, com 11 anos, ao meio dia em ponto, ela parecia imensa.

A ladeira tem cerca de 300 metros, é muito íngreme, curva em “S” e no meio dela tem uma árvore, onde um homem se suicidou e ninguém queria passar por lá a noite. Mesmo de dia tínhamos medo da árvore depois desse suicídio. Ela era frondosa de um verde-escuro com os galhos grande e com muitas folhas fazendo uma sombra que ia bater na calçada e que, antes, nos fazia parar para aguentar subir o resto.

A calçada era toda cheia de buracos, nos obrigando a andar pela pista, que era, na época, de paralelepípedo, não descia ônibus pois era perigoso. E alguns carros ficavam no meio dela pois não tinham força para subir. Imagine a gente, com fome e no sol quente.

Tinha, logo na entrada da subida, um homem que vendia laranja descascada. Antes ele descascava com uma faca bem amoladinha, depois trocou por uma espécie de moinho que ele girava e ia descascando. Em geral, as laranjas eram bem doce. Quase nunca tínhamos dinheiro pra comprar, mas, quando tínhamos, dividíamos as laranjas para todas. Naquele calor era um bálsamo para nós.

A ladeira por si só já é um personagem na vida de todos os mãeluizenses. Lembro das colegas: Liege, Ilka e Cleonice, e das melhores amigas de Sandra: Denise, Andrea e Ruth. Todas subindo a ladeira no sol escaldante e uma puxando a outra, rindo do cansaço. Era pior quando estava chovendo. A água que descia a ladeira formava correnteza, nos molhava todinha, mas, mesmo assim, a subíamos.

Quando chegávamos na escola, pegávamos o tênis e a camisa da farda de dentro da bolsa, itens obrigatórios para entrar na escola e que meus pais tinham comprado com dificuldade. Botávamos o tênis nos pés e mostrava a camisa ao porteiro íamos ao banheiro, tirávamos a camisa molhada, colocávamos junto a chinela dentro da mochila, numa sacola e ficava com a calça molhada mesmo, secava no corpo. Era horrível. Melhor com sol.

Certa vez Sandra, que sempre foi muito traquinas, encontrou um pneu na subida da ladeira e disse: “Vou levar esse pneu” e foi subindo. Estava chovendo. Já estávamos com os bambas (tênis escolar da época) todo molhado e Sandra rolando o pneu e eu dizendo “Mulher, solta esse pneu”. Até que ela, de repente, decidiu soltar o pneu e deixou o pneu em pé. Bem onde tinha a maior correnteza.

O pneu começou a rolar pela ladeira e pegou cada vez mais velocidade. Bateu no muro de uma casa que ficava no meio e continuou descendo. Agora com a velocidade de um carro. Passou um fino de uma mulher lá no começo da ladeira. Hoje fico pensando. Se o pneu atingisse aquela mulher... Subimos o resto da ladeira. Caladas. Mas depois rimos muito disso, “Graças a Deus que não bateu em ninguém”, Sandra dizia rindo.

Texto: Sonia Borges - Insta: id.sonia
Revisão: Lula Borges

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O retratista e seu cavalinho

O retratista era um homem, que andava subindo e descendo o morro com uma máquina fotográfica grande pendurada no pescoço e um cavalinho no ombro. Sempre educado, elogiava a gente dizendo “Que crianças bonitas, vamos tirar um retrato para guardar de recordação? Elas vão crescer”. Todas as crianças sonhavam em tirar uma foto sentada no cavalinho. Eu era apenas mais uma.

No entanto, para falar do retratista, tenho antes que falar de outro assunto: nossas madrinhas.

Todos os domingos, a tarde, a gente se arrumava e mamãe fazia a faxina na gente. Unhas cortadas, cabelo penteado, dentes limpos, roupas de domingo e íamos pra calçada tomar vento ou para a casa das madrinhas.Tudo cheiroso a colônia Avon (as que tinham), sem fazer nada na calçada. Quando íamos visitar as madrinhas, era bom. Subíamos e desciamos as ladeiras e chegávamos em casa suados e com os pés sujos de areia.

Mas minha madrinha de fogueira morava na frente de casa, Dona Nazaré. Era negra, baixinha, sempre carinhosa comigo. Sempre estava passando roupa com seu ferro a carvão. Mamãe perguntava porque ela não comprava um elétrico. Ela falava que tinha medo. Tinha 3 filhos e era uma mulher que só se via na rua quando ia buscar ou deixar as roupas na casa das patroas.

Eu pedia a bênção ela segurava minha mão beijava dizendo: “Deus eterno te abençoe, em nome de Jesus”. Eu beijava a dela. Era uma mão seca, dura como se os dedos fossem finos gravetos. A palma era muito áspera. Ela sempre tinha o mesmo olhar pra mim, uma mistura de carinho e impossibilidade. Sempre dizia “um dia vou te dar um presente lindo!”. Nunca deu. Mesmo assim eu a amava e amava ir pra casa dela com aquele cheiro de roupa limpa passada no ferro de carvão.

Meus irmãos também iam na casa dos padrinhos de fogueira. Os de batismo só uma vez por ano, na sexta-feira da paixão, dar a bencão e pegar as esmolas, como era tradição na época. Minha madrinha de batismo vi poucas vezes. Nunca me deu nada. Eu achava que madrinha de batismo tinha que dar presente. Os padrinhos de batismo eram distantes. Ex-patroas de mamãe ou gente que tinha feito algum favor a papai. Era assim que funcionava.

A madrinha de fogueira era alguém responsável, que morava perto e que podia ajudar numa necessidade. A de Sandra era uma senhora que morava em outra rua. Mamãe nunca ia, pois a chegada na casa dela era muito íngreme, tinha medo da gente cair. Mas ela ia lá em casa. Mamãe fazia café e botava num bule de porcelana branco. Servia ela, como servia as amigas das patroas dela quando trabalhava de doméstica. Gostava de receber as pessoas em casa. Essa madrinha era mais carinhosa que mamãe, botava Sandra no colo e sempre trazia uns confeitos. Abençoando ela e dizendo que ela era linda.

Um certo dia de domingo a prima da minha mãe foi lá em casa levou os filhos. Geruza, Geomar e Leila, que ainda era pequena. Estava grávida de novo (ela sempre estava grávida). Chegou, sentou-se nas cadeiras que mamãe sempre botava pra fora e ficaram conversando. Nós, todos arrumados, de sandálias nos pés, fomos brincar no quintal. Sandra sempre subindo nas árvores; Paulo amava brincar com fogo; Dinho gostava de conversar com Geomar; eu brincando de boneca com Gerusa e Leila, eram assim as tardes de domingo.

Mas nesse dia foi diferente. Estávamos brincando, até que Dinho foi lá no quintal e pegou um Coelho que criávamos. Pronto estava feita a festa. Nós abandonamos as bonecas e corremos para brincar com o Coelho que era lindo. O pelo macio e as patas que arranhava de mansinho a gente. Foi a primeira vez que coloquei o Coelho no colo. Mamãe dizendo vão guardar esse Coelho e a gente teimando.

Chegou o retratista. A gente suado de tanto brincar e mamãe negociando a foto. Eu só olhava o cavalinho no ombro dele era de um lindo marrom e branco, com uma cela de verdade de couro, pequena e os arreios.

Mamãe perguntou quanto era, ele disse. Ela perguntou quando ele vinha deixar, ele respondeu. Mamãe disse tá bom quero duas fotos e levou o homem pro quintal. Botou uma cadeira em baixo do coqueiro e mandou o homem tirar a foto, Dinho estava segurando o Coelho, eu sentada junto com Paulo no colo de mamãe e Sandra do lado. Pronto, o homem disse “Olha o passarinho”, Eu olhei. Ele falou “não deu certo, fiquem na posição”, eu com os olhos bem abertos para ver o passarinho, dessa vez nada… O homem disse “Calma as vezes da errado, pera”. Eu, de olho aberto ao máximo. De repente os olhos começaram a lacrimejar, comecei a coçar os olhos o homem disse: Pronto deu certo. Eu fiquei, “ôxe cadê o passarinho”?

Depois fomos pra fora de casa e tiramos outra foto. Tudo junto, mas nenhuma no cavalinho. Eu fui perguntar a ela porque eu não podia tirar foto no cavalinho ela disse:

“Soninha, é 2 cruzeiros pra tirar a foto no cavalinho. Para tirar vocês tudinho junto é 1 cruzeiro. Quando você crescer vai entender”. Hoje eu entendo a não possibilidade de dar o mínimo. Para ela, ter a foto dos filhos era o máximo que ela podia fazer com o pouco dinheiro que tinha.

Ficamos brincando até a hora dos trapalhões e esqueci do retratista que trazia o sonho daquela pose no lindo cavalinho marrom.

Texto: Sonia Borges - Insta: id.sonia
Revisão: Lula Borges

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Vida de comerciante no morro

 

Em Mãe Luiza sempre apareciam umas figuras que não tem como descrever hoje em dia. Eles apareciam com seus carros de som ligados no máximo com um monte de crianças correndo atrás, como se fosse uma procissão. Músicas animadas e todos corriam. Era bonito de se ver. Até alguns adultos com crianças nos braços, como dona Kátia, corriam atrás dos carros era todo tipo de promoção:
Um cabo de vassoura por um pacote de sal.

    Um algodão-doce por uma panela.

    Troca-se metal velho por um pinto colorido.
    Uma garrafa por um algodão-doce.
    Carro do ovo.
    Carro da fruta…

Tudo acontecia na hora, na frente de todos. Nós guardávamos todo tipo de coisa para trocar nesses carros.
Além deles, ainda tinham os prestonistas (prestamistas). Eram homens que subiam e desciam ladeiras com um monte de pacotes de lençol, amarrado com uma corda. Eles andavam por todo o bairro. Vendiam a crédito, num cartãozinho vermelho. Lá em casa sempre tinha um e papai sempre reclamava com Mamãe: – pra que comprou mais um lençol? – Mamãe: – Não é um lençol, é uma colcha de cheniu (chenile), todo mundo tem uma! Eles se resolviam sempre.

Tinha também a mulher do óleo. Era uma senhora que andava pelo morro vendendo óleo e colônia. Ela era muito cheirosa. Mamãe sempre comprava um óleo cheiroso para passar no cabelo.

Tinham os que vendiam caranguejo no sábado de manhã. As pessoas compravam para fazer no domingo. Deixavam eles vivos dentro de baldes e, no outro dia, cozinhavam os crustáceos. Era muito barata uma corda com 10 caranguejos. O problema era matar e tratar. Sim, eles eram comprados vivos em cordas penduradas num pau parecido com um cabo de enxada.

Mas o que me encantava mesmo era o homem do munguzá, com seus caldeirões brilhantes e uma voz muito afinada. Ele gritava: – Temmmmm coco, ooooolha o manguzá! Era quase uma música pro nossos ouvidos. Mamãe comprava sempre e dizia: – Tá feita a janta, Luizinho vá comprar 10 pão! Não era todo dia que ele passava, mas quando ele vinha, a filha da vizinha já estava com uma cumbuquinha. – moço, me dá um pouquinho? Ele parava, olhava pra ela e dava meia concha. Sabia que a mãe não tinha condições de comprar.

Nossa família também passou por essa fase, com papai vendendo banana. Ele comprava na xepa da feira e vendia em dois balaios pendurados, enquanto não era chamado no concurso da CAERN. deu para nos sustentar por um tempo. Mas, depois que recebeu o primeiro salário, abandonou a vida sofrida de vendedor.

Assim, naquela época, o povo ganhava a vida e sobreviviam, apesar das dificuldades.


Texto: Sonia Borges - Insta: id.sonia
Revisão: Lula Borges





Sobre sofrer dos nervos

Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está?  E aprendemos a responder a essa pergunta com ...