terça-feira, 29 de março de 2022

Com os pés na areia de Genipabu


A família toda foi convidada para um churrasco na casa de praia de Dra. Marlene (na verdade ela é minha madrinha, por isso daqui pra frente vou me referir a ela como madrinha). Eu nunca tinha ido a um churrasco. Só via isso na TV. Era estranho pra mim, que só tinha carne disponível no final de semana imaginar que algumas pessoas assavam um monte de carne de uma vez e passavam o dia todo comendo.

Também não conhecia Genipabu. Madrinha foi buscar eu e meus irmãos de bugre, papai e mamãe e os irmãos menores foram na frente em outro carro com Gilene, irmã de madrinha. Fomos pela orla da Via Costeira até o Iate Club, onde tinha um serviço de travessia de carros por balsa. Atravessamos o Rio Potengi, uma novidade na época; tinha começado esse serviço de travessia de carros a pouco tempo. Era rápido chegar na Zona Norte. Uma viagem que antes durava umas 2 horas agora era possível fazer a travessia mais rápido.

Chegamos na redinha, Zona Norte de Natal em uns 10 minutos, atravessamos o bairro e madrinha decidiu ir pela praia (na época não era proibido). Chegamos à beira mar na altura do coqueiro rei, e pegamos pela praia até Santa Rita.

Lá ela parou o carro, desceu, botou os pés na areia. Os pés dela eram bem brancos e com uns dedos fininhos bem delicados, com unhas alongadas mas sem esmalte. Fiquei ali parada perto de um dos pocinhos da praia, olhando ela colocar os pés na arreia como se fosse um ritual. Há essa hora meus irmãos já estavam todos rondando os pocinhos e eu observando ela, que nesse momento olhou pro mar como se não fosse uma paisagem comum, em contemplação os cabelos escuros soltos ao vento, seu rosto muito afilado, pele clara.

Dali a um tempo a água do mar chegou a tocar nos seus pés mas de mansinho quase como se tivesse fazendo um carinho nela, mas fez com que ela acordasse dos pensamentos. Ela olhou pra mim e disse: – Vamos, tá na hora. Chegamos na casa de praia ao meio dia, o almoço estava pronto, feijão verde, camarão, arroz, carne assada e um monte de salada. Tinham duas moças que trabalhavam lá. A casa era grande, 2 andares, uma sala enorme com garagem para uns 3 carros, tinha uma arquitetura nova bem diferente das casas de praia comuns naquela época.

Chegamos na casa. Ela tinha portas e janelas grandes, todas em um padrão só; vários quartos e banheiros; uma cozinha bem equipada. A sala ou salão era uma lindeza, tinha um leque grande na parede que ela comprou na viagem que fez ao Japão, fazia questão de mostrar os mimos de suas viagens e eu viajava junto. O sofá era um monumento a parte, coberto com um tipo de tecido impermeável muito colorido com flores vermelhas e rosas e folhagem verde-escuro era um espetáculo.

Comemos deixamos os mais velhos conversando e fomos a praia, na frente da casa. Genipabu, era uma praia deserta, pouquíssimas pessoas mesmo sendo um sábado. Era bonita a cor do mar de um azul turquesa com muitas ondas, não dava pra tomar banho. Como crescemos próximo ao mar sabíamos quando era arriscado entrar. A maré estava cheia, jogando pra fora, arriscado se afogar. Preferimos deixar os pequenos com os adultos em casa e ir pro morro, que ficava próximo a casa.

O morro de arreia muito branca desembocava no mar, realmente era lindo. Um lindo cartão-postal. Mas estávamos querendo subir pra ver o que tinha por trás do morro. Na verdade não tinha nada, só morro e mais morro. Lá de cima dava pra ver uma faixa de casas de praia inclusive a de madrinha. Lá em cima também tinham umas crianças e adolescentes, descendo de tábua de morro (skybunda).

Eu gostava de andar de tábua de morro; eles nunca tinha visto menina que andava de tábua, acharam estranho eu descer uma pequena duna de tábua em pé. Minha irmã, que era crack nisso, até fazia manobras, desceu o morro grande e só parou no mar de pé na tábua. Ficamos lá subindo e descendo o morro com as tábuas emprestadas, até a vela, que passávamos nas tábuas para deslizar melhor eles cederam.

Pensei "meninos do interior são muito bobos". Nós, em casa, sempre brigávamos pois a vela a parte mais cara para se manter com a tábua deslizando. E nossos pais, muitas vezes queriam para dar luz, que é a função dela. Aqui eles davam de graça e ainda incentivam que a gente descesse. Depois tomamos banho nas águas mornas de Genipabu, pois a maré baixou e foi possível tomar banho sem medo. Voltamos à casa de praia. Comemos carne, refrigerante e pão de alho e voltamos para nossa casa, felizes e cansados com a certeza de que moramos no melhor lugar do mundo.

O problema foi dormir a noite com a pele vermelha toda queimada do sol. Na época não existia protetor. A moda era ficar bronzeada. Eu não bronzeava, ficava vermelha como um jambo, depois despelava e voltava a branquitude extrema.

Foi um dia especial, daqueles que ficam guardados na mente e no coração.

Texto e edição: Sônia Borges. Instagram: id.sonia
Revisão e edição: Lula Borges


quarta-feira, 23 de março de 2022

Coisas da Redinha: Ginga com tapioca

 


Um dia, conversando com minha cunhada, Iana, ela falou que sua avó tinha sido a criadora de um prato típico da redinha, que depois foi considerado bem imaterial da cidade do Natal-RN, Como sou muito curiosa perguntei como tinha sido tal criação. Fiquei surpresa ao saber que a avó dela tinha tido 16 filhos e que vários tinham morrido ainda pequenos. Como seria a história dessa guerreira que criou esse prato tão especial e delicioso, mesmo no meio dessa vida tão sofrida, com tantos filhos e um marido que também vivia de compra e venda de produtos, principalmente peixe na redinha, o famoso marchante?

Ela ia me pincelar a história, com a ajuda de dona Ione, filha caçula do casal. Por ser uma história real, me reservo a licença poética para descrever a redinha daquela época, pois quando fui apresentada a esse bairro, tinha cerca de 10 anos. O bairro era um interior de Natal. Uma colônia de pescadores, com poucas casas de praia e ruas sem calçamento. É assim que quero que vocês imaginem o bairro. Como uma colônia de pescadores que iam e vinham, e ainda hoje puxam as redes de arrasto, rezando pra vir peixe graúdo. Quando não vem o jeito é se contentar com os miúdos, apelidados aqui por ginga.

Também haviam diversos barrotes enfiados na arreia com cordas passando de um lado a outro como um varal, era onde os pescadores de redes de arrasto penduraram as redes que, diferentes de hoje, que são de nylon, eram de um material parecido com barbante, por isso a necessidade de pendurar para secar e retirar o sargaço das algas que ficavam presas; além de também costurar algum furo que houvesse nelas, por onde os peixes pudessem passar.

Dona Dalila era casada com seu Geraldo. Muito batalhadora, tinha uma barraca na praia onde vendia comida, mesmo só tendo mais saída desse itens nos meses de veraneio. Seus pratos eram muito apreciados pelos veranistas que se tornavam clientes e amigos do casal. Mesmo durante toda essa batalha ela veio a ter seus filhos.
Em um tempo em que existiam poucas geladeiras ou gelo, os peixes, quando não eram vendidos fresco, tinham que ser tratados e salgados para poderem ser vendidos, ela comprava peixes tratava e vendia frito.

Certa vez, em um tempo em que a maré não estava pra peixe, o seu marido informou que não estava conseguindo trazer os graúdos. Os pescadores também, ao puxarem as redes, só vinha sargaço e ginga. Eles retiravam essas plantas e levavam as poucas gingas pra casa. Isso aconteceu em pleno veraneio quando havia muita gente na praia disposta a comprar qualquer coisa para comer. Só que não chegava peixe de canto nenhum nem dos barcos nem do mar. Seu Geraldo, que também vivia da compra e venda de peixe, falou: – Só tem ginga, e agora? O que vamos fazer? Os veranistas estão todos na praia e não aceitam peixe pequeno.

Ela muito esperta e acostumada as dificuldades da vida, foi num coqueiro tirou uma palha, pegou uma faca fininha e foi cortando de folha em folha da palha, retirando os palitinhos que ficam no centro da folha. Como ela sabia que seus filhos adoravam ginga frita, salgada e crocante. Enfiou alguns peixes nesses palitos e salgou. Pela manhã passou na farinha e fritou, quando os veranistas chegaram morrendo de fome depois do banho de mar com seus filhos perguntaram que peixe ela tinha, ela: – Hoje só tem ginga frita com tapioca. – Eles com fome diziam – Então traga. Ela passava na farinha na hora e botava no óleo bem quente, colocava os espetinhos de ginga na tapioca e servia aos veranistas rezando para eles não reclamarem do tamanho dos peixes.

Surpreendentemente para ela, eles comia e sempre repetiam. Davam para as crianças, pois a ginga frita na hora é crocante e, por ser salgado no dia anterior ao serem colocados nos palitos, tomavam muito bem o sal. Na hora de fritar era retirada toda a água do peixe deixando-o com uma crocância única. Os veranistas gostaram. Mais ainda por não precisar tirar as espinhas, podiam ser dado para as crianças sem medo e ornava muito bem com um copo de café quentinho e um cigarro pra relaxar. O tempo passou, os peixes voltaram ao mar e ela voltou a oferecer peixes maiores para os veranistas, no entanto, estes só queriam a ginga no palitinho e tapioca no coco, como ela tinha feito no último veraneio. Ela, esperta, simplesmente servia o prato e muita gente vinha conhecer que prato tão especial e diferente era aquele.

Se tornou uma febre, todos os veranistas queriam provar a ginga com tapioca de dona Dalila e ela sempre bem humorada, recebia os veranistas com todo carinho e atenção. Depois descobriram que a ginga também combina muito bem com cerveja e aguardente. Pronto sucesso total. A grande maioria das pessoas da cidade do Natal já provou dessa iguaria e eu posso dizer é realmente muito saborosa.
Anos depois dona Dalila morreu deixando alguns dos filhos criados. Nessas batalhas se foram 9 crianças, infelizmente. Os outros 7 se tornaram adultos, alguns também já se foram depois de sua partida. Hoje ainda é possível provar dessa iguaria em todas as barracas da redinha, onde os visitantes podem aproveitar e tomar um banho nessas praias límpidas e mornas ao lado da capela feita de pedras pelos pescadores em homenagem a nossa senhora dos navegantes e saborear nossa ginga com tapioca de dona Dalila.

Vou abrir um aparte para explicar o sabor real da ginga com tapioca original: a ginga é um peixinho com cerca de 10 centímetros, quando frito em óleo muito quente perde toda a água devido a quentura e também por causa do sal que é colocado nela antes de fritar, deixando apenas o sabor de peixe e a crocância, sendo possível até crianças comerem sem risco de engasgar pois as espinhas se quebram por está sequinha. A tapioca, feita com coco fresco tem um sabor inigualável. É fofa e tem uns gominhos como bolinhas um pouco salgadas com um sabor de coco seco e leitoso que trazem ao paladar um sabor específico que casa muito bem com o peixe. A ginga por sua vez, tem um sabor forte, salgado, crocante. Ao se misturar na boca se percebe que um combina exatamente com o sabor do outro.

A ginga foi feita para a tapioca, sem dúvidas.

Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges


segunda-feira, 14 de março de 2022

Desratização: quando todos se uniram contra os ratos

 

Aqui em Natal era tão raro médico negro que um dia, há mais de 15 anos, uma mulher que estava com um paciente na UTI cardiológica do hospital que eu trabalho reclamou que a boca do acamado estava suja. Olhou para o rapaz e disse “Traga uma gaze para limpar a boca do meu pai”. Ele foi lá, pegou a gaze, molhou, botou a luva, foi até o paciente e limpou a boca do Senhor. A mulher ficou só olhando o serviço da limpeza da boca ser feito. Depois veio até mim e perguntou:

– Enfermeira, quero falar com o médico da UTI pra saber como tá papai.

Eu, que tinha observado tudo disse:

– A senhora já falou. Ele até limpou a boca do seu pai... Ele, em geral, só faz um atendimento por visita; mas posso pedir para ele falar com a senhora de novo.

Ela, sem graça, disse:

– Não precisa.

Saiu sem falar.

Na UTI, do ASG ao médico, todos usam a mesma roupa. O susto dela foi de ver um lindo homem negro sendo o chefe da cardiologia do hospital.

Hoje é bem comum médicos negros, graças às cotas e ao esforço deles, mas nem sempre foi assim. Era gente branca que vestiam-se de branco. Uma das primeiras vezes que percebi isso foi em uma ação da igreja e da comunidade, com o Padre Sabino.

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Em uma reunião na igreja, uma das participantes disse que um bebê tinha sido mordido por um rato. a maioria do povo riu e alguns disseram:

– Isso é normal. Conheço um monte de gente que já foi.

Na época eu estudava no Augusto Severo e sabia o quanto era grave a mordida de um rato. A mãe do bebê levou ele pra maternidade e ele não podia receber a medicação, pois era muito pequeno. Ficou internado. No momento em que o padre chegou a pessoa estava falando essa parte do bebê ter ficado internado. Ele perguntou:

– Porque o bebê foi internado?

Ela falou com a maior normalidade.

– Porque foi mordido por um rato.

Ele fez uma cara de susto.

– Esse bebê tinha quantos meses?

Ela disse:

– Acho que nem um mês, mas tá internado, tá bem, mordeu só o dedinho da mão. A mãe com medo, levou o bebê pra maternidade e, no final, tá lá internada.

O padre tinha um hábito de passar a mão no cabelo como se estivesse penteando com os dedos, quando estava nervoso e nesse momento ele estava chocado. Empalideceu. Perguntou:

– Onde a criança está internada?

Ela disse:

– Na Januário (Maternidade Escola Januário Cicco).

Ele disse:

– Vou visitar! Vocês estavam dizendo que isso é comum? Como assim? Me expliquem?

Silêncio total. Ninguém se atreveu a falar. A reunião era de conhecimento bíblico. Estávamos preparados para isso. Mas a reunião mudou de tema na hora. Ele perguntou.

– Quem daqui já viu um gabiru próximo a sua casa, levante a mão.

Eu já tinha visto por isso levantei. Mentir pra padre da um azar danado. Resultado. Todos levantaram a mão. Como tinha naquela reunião pessoas de todas as partes do bairro, o reverendo demonstrou uma cara preocupada. Disse.

– O rumo da reunião vai ser outro. Escreva aí na ATA: reunião para decidir os rumos da desratização do bairro. O que podemos fazer para reduzir a proliferação de ratos no nosso bairro. Um rapaz que trabalhava no posto falou que tinha veneno lá, mas não tinha ninguém da SUCAM (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, equivalente aos atuais programas de controle de endemia) pra deixar nas casas.

– Bote aí na Ata: marcar reunião com a direção do posto de saúde. Eu falei.

– Lá perto de casa tem um lixeiro e os ratos saem do bueiro e vão pra lá.

Ele.

– Bote aí: agendar uma reunião com a Urbana.

Alguém falou que a população não sabia exatamente os riscos que ter ratos por perto. O padre falou.

– Escreva: elaborar um jornalzinho explicando pra população as doenças e de onde os ratos vem.

E assim seguiu a reunião todos falando as experiências com ratos próximo ou dentro de casa. E cada vez mais o padre passava mais a mão no cabelo. Pediu licença e acendeu um cigarro. Ele nunca fumava em reunião. Aí fui eu que fiquei preocupada. Ele saiu do sério. Depois de muito se falar sobre ratos e lixo, ele disse: “A reunião terminou”. Rezamos um pai nosso e fizemos um salve para Nossa Senhora e fomos pra casa.

Alguns dias depois, o padre foi lá em casa fomos em seu Mané Grosso, agendar uma reunião para a noite do outro dia. Ele falou da necessidade de vir muita gente. Seu Mané disse: “vou oferecer um suco, aí vem muita gente”. O padre disse: “eu trago biscoito”. Mamãe fez um bolo, outra pessoa fez café, no final tinha bastante lanche. Deu 19:00 horas, chegou um carro com 4 pessoas brancas vestidos de branco e com Joias. Isso era raro de se ver por ali. Pouco depois chegou o padre com irmã Francisca e outras pessoas da paróquia.

O povo branco começou a falar da situação e da necessidade de acabar com os ratos, do risco de colocar o veneno e deixar caixa de água aberta, tambor, cisterna, tudo tinha que ser fechado. Tinha que ser feita a entrega de veneno em todas as casas do bairro, por isso, quanto mais gente fazendo essa entrega do veneno, melhor a cobertura de todo o bairro para se proteger. E se alguém quisesse se voluntariar, podia. Ia ter um treinamento específico. Lógico que eu tava dentro.

Fiz o treinamento que era para informar o risco de deixar água com fácil acesso aos ratos e tentar deixar em maior número de casa possível. No curso tinha de escoteiro (ou desbravador?) a idoso, se tornou uma força tarefa.

No sábado seguinte, às 7:00 da manhã, estávamos na igreja. Muita gente. Cada um pegou uma parte do bairro. Eu peguei a parte de trás da padaria. A população já havia sido informada nas igrejas, terreiros, capoeiras, escolas, CEMIC, Centro Social... Então foi fácil. Só chegávamos nas casas e as pessoas já diziam onde tinha rato. A urbana retirou todas as caçambas de lixo do bairro e faria isso a cada 2 dias. A população foi incentivada a retirar tudo que pudesse esconder ratos dentro das casas.

O lugar que a maioria das pessoas mostravam, era atrás dos fogões e no quintal. A gente explicava que tinha que deixar o fogão limpo e fechado a noite, para que os bichos fossem comer o veneno e não a comida. Uma manhã inteira subindo e descendo becos, vielas, vilas e ruas, jogando veneno em cada cantinho do bairro e vendo os garis limpando todas as ruas, informando a população que tinham que jogar fora todo o lixo.

Quinze dias depois tudo, de novo. Era o tempo de reprodução deles. Tudo de novo. Só que dessa vez não tinha mais lixo nas ruas. A Urbana estava fazendo a parte dela. A população também. Não precisava mas explicar nada. Bastava deixar o veneno nos locais e pronto. Duas semanas depois tivemos uma reunião com as pessoas brancas que, agora, eu sabia que eram médicos, enfermeiras e sanitaristas da prefeitura. Nos elogiaram pela campanha e explicaram o sucesso. Não tinha mais ratos no morro nem nos arredores. Petrópolis e Arreia Preta. Batemos Palmas e rezamos o Pai Nosso. Não fizemos o Salve Nossa Senhora em respeito as outras religiões que ali se faziam presente.

Sei que é estranho ver alguém branca, como eu, chamado outras pessoas brancas de brancos. É que, antigamente, só existiam médicos brancos. Nunca vi um doutor negro até adulta. Era muito raro médicos negros ou morenos.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Seriguela, ciriguela ou siriguela?

Quando criança, existiam algumas frutas que eu gostava muito, outras que eu gostava menos, outras que eu não tolerava. As piores eram goiti, sapoti, ingá e genipapo (inclusive não gosto nem do nome delas). Dentre as que eu mais gostava, estava a ciriguela.

Certa vez, papai chegou da Feira com 2 toucas delas. Vovó viria no dia seguinte do interior e ele comprou para ela. Mamãe botou elas na geladeira enquanto arrumava as outras frutas e verduras que ele tinha comprado. Depois foi na geladeira e pegou uma das toucas – Vou chupar essa com os meninos. – Falou ela. Lavou botou numa pequena bacia e a gente tudo atrás dela esperando.

Ela deixou a bacia num banco que tínhamos em baixo da mangueira, pegamos e chupamos. Depois, quando só tinha um pouquinho, ela deu uma pra cada e saiu levando a bacia seca. Ficamos lá saboreando as últimas frutas.

Depois ela voltou e me viu com vários caroços de ciriguela, falei:

– Vou plantar!

Ela riu.

– Ciriguela não dá de caroço não.

Mesmo assim eu peguei os caroços, areia, uma lata de margarina e água. Botei areia na lata cavei buraquinhos com os dedos e enfiei os caroços lá, aguei e pronto era só esperar... A noite sonhei com um pé de ciriguela cheio de frutas. De manhã fui para escola e quando voltei vovó estava em casa. Pedi a bênção e fui olhar a margarina nada de ciriguela.

Desisti dessa vida de agricultora. Muito cansativa. Joguei a margarina com os caroços fora. Mamãe viu e perguntou

– Que bagunça é essa?

Eu respondi

– As sementes não nasceram. Fui assistir televisão com meus irmãos.

Dias depois mamãe chegou com um galho grande de mato. Foi no quintal, que era imenso. Me chamou – Olha Soninha, é assim que se planta ciriguela. Cavou um buraco no chão enfiou, uma parte do galho, jogou água em cima e deixou lá. Pela manhã passei de frente ao galho seco. Até as poucas folhas que tinham, caíram. Olhei com desdém e esqueci daquilo,

Teve a época de chuva, depois o verão, o tempo passou e eu já tinha esquecido do pé, quando mamãe me chamou.

– Olha, já está com várias frutinhas. O galho tinha se tornado uma pequena árvore e estava com uns frutíferos verde. Eu fiquei ali parada. Pensei.

– Caramba! É do galho seco.

Passou algum tempo até mamãe me mostrar umas ciriguela maduras e me dar uma. - Tome, prove como tirada do pé é mais gostosa.

Ela era vermelha, uns 3 centímetros. Coloquei na boca, mordi era mais doce do que qualquer outra que eu já tivesse provado. Até a fina casquinha era doce e massenta. Como todas as ciriguelas, me deu vontade de continuar com o caroço na boca, mas mamãe disse:

– Vamos comer essas que estão inchadas.

Eu peguei uma e mordi. Era azeda com, um pouco de doce no final. Falei: – Prefiro esperar amadurecer.

Todos os dias ia no pé pra ver se tinha frutas maduras mas não dava tempo. Meus irmãos gostavam delas inchadas.

Depois me acostumei a comer elas inchadas, nunca dava tempo de amadurecer.

 Até hoje sempre compro na praia e nas feiras mais me confundo sempre na grafia do nome: seriguela, ciriguela, como no dicionário ou siriguela como a gente pronúncia e escreve no dia a dia.


Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges

segunda-feira, 7 de março de 2022

O Barreiro de Tota

 


Mãe Luiza é um bairro que se formou aos poucos, becos, vielas, ruas, avenidas. Eu, costumeiramente, andava por todos os ambientes do bairro, tendo visto todos do começo desde a época que se dividia os terrenos por barrotes e cercas de vara, até os tempos de escadarias e muros.

O bairro é dividido por localidades que são bem distintas. Inclusive foram formadas de acordo com o relevo do bairro. Não existem placas ou algo que informe que lá é aquele ou esse lugar. A gente apelidou o lugar e por apelido ficou. Tanto faz o nome que a prefeitura deu. Para a população o lugar tem um nome e esse nome é passado de geração em geração.

A bacia: quando chovia no morro a água descia e se acumulava em alguns pontos do bairro um dos pontos era a bacia. Ficava, em tal época, uma lagoa. Entrava água nas casas mais baixas, obrigando os moradores a levantar o piso e não dava para fazer um canal escoando para as ruas vizinhas, pois corria o risco de derrubar as casas das ruas de baixo. O jeito era esperar parar a chuva e esperar a água baixar, deixada como uma bacia cheia de água.

Lagoa do Sapo: era mais ou menos a mesma situação da bacia, no entanto era na rua João XXIII por ser calçada, depois asfaltada,onde passava ônibus e desembocava o esgoto das ruas vizinhas. Não secava nunca. Então começou a criar mato na lateral e sapos coaxavam a noite. Era muito suja e apelidaram de Lagoa do Sapo. Havia época que não dava para passar nem de ônibus, obrigando os motoristas a irem pela rua de trás, mais alta um pouco.

Essas duas situações foram resolvidas depois do saneamento do bairro mas as localidades continuam sendo chamadas assim.

O conjunto: construído na década de 1980, foram doadas às casas pelo governo para moradores de baixa renda e que não tinham casa própria. Hoje não parece em nada com o conjunto da época. Todas as casas já foram reformadas mas ainda é chamado de conjunto.

Barro duro: parte mais baixa do bairro. A maioria das casas foi construída sem alicerces pois não dava para cavar o barro. Por ser a parte mais baixa do bairro, o vento levava a areia para as áreas mais altas de dunas, ficando a parte mais baixa apenas o barro, que era usado para fazer as casas de taipa e depois usado nas construções de casas de alvenaria.

Morro da cruz: próximo ao farol. É uma área que a população até tentou construir. No entanto, por ser muito íngreme não deu, tinha nos lados floresta, visto da via costeira dava para enxergar uma cruz.

Favela do sopapo: foi um pequeno terreno íngreme que ficou sem construção no meio do Conjunto, durante algum tempo. Até a população resolver invadir do dia para a noite e construírem vários barracos, que foram derrubados pela manhã e construídos depois de 2 dias de novo. Depois a prefeitura veio derrubou de novo. A população fez os barracos de novo e a ameaça veio de novo. Algumas pessoas desistiram, outras continuaram levando os sopapos, até que um dia a prefeitura deixou quieto e o povo construiu as casas. Até hoje se você disser que algo é na favela do sopapo, todos sabem onde é.

Alto da colina: É a parte lateral direita do bairro. As casas foram construídas uma do lado da outra como um dominó, morro a cima, até o limite do parque das dunas. São várias ruas, na maioria sem saída por cima. Quem é do bairro se refere a essas ruas como travessas, primeira travessa, segunda travessa... E assim por diante. Realmente olhando de baixo dá impressão de colina.

A Guanabara: região mais bonita de Mãe Luiza. Não é a toa que batizaram de Guanabara. A paisagem de lá dava para ver a praia todinha. Linda a paisagem e sem contar que quando íamos de ônibus dava um friozinho na barriga quando o ônibus subia a ladeira da Guanabara. Todos tínhamos medo de um dia, o ônibus sair da avenida e descer morro abaixo.

E por final me reservo o direito de colocar o Barreiro de Tota como parte do bairro. Não por fazer parte do relevo, mas por fazer parte da história do bairro. Tota era um senhor que tinha uns cavalos e carroças. Negociava barro em todo o bairro, eu, por muitas vezes, ouvia falar do barreiro, mas um dia fui apresentada a ele. Foi assim:

Um dia papai estava colocando uma lavanderia no quintal, com um resto de cimento que tinha sobrado da construção da nossa casa. Falou que estava faltando só o barro (na época se usava barro para reboco e construção). Ele disse que ia comprar, mamãe falou e porque não vai buscar no Barreiro de Tota com Luiz. Eu nesse momento interferi – Porque eu não posso ir?

Já havia ouvido falar muito do Barreiro de Tota, mas, não fazia ideia do que realmente era. Pegamos a Via Costeira. Eu, Dinho, Sandra e papai com o carro de mão. Andamos bastante até chegar na frente do Marsol Hotel. Atravessamos a avenida e entramos no barreiro. Para mim, estávamos entrando num labirinto. Tudo era grande. Muito grande. Paredes imensas de barro branco. Papai continuou andando e as paredes ficando mais altas. Ele procurava um veio de barro amarelo, que segundo, ele dava mais liga.

Eram paredes imensas parecendo o Grand Canyon. Um labirinto enorme de barro muito duro, por isso não desabava. Fomos até o final, onde tinha uma duna íngreme. No pé dela tinha um veio de barro vermelho. Haviam uns batentes escupidos no barro. Papai subiu com a pá e começou a cavar e derrubar o barro, deixando a gente que estava em baixo sujos de poeira. Ele falou – Sai tudinho, que vou palear o barro! – Saímos.

Começamos, eu e Sandra, a caminhar pelo barreiro. Tinha paredes muito altas cerca de 3 metros de altura. Sandra, que era a aventureira, disse – Vamos Sônia, correr pra ver se achamos a saída. Começamos a correr pelo labirinto. Cada hora achando uma parede maior. Nelas tinham escritas várias declarações de amor. Fulano × cicrana. Tinham desenhos lindos esculpidos: sol, pranchas de surf, rostos de mulheres...

Ficamos observando e caminhando, até que chegamos ao centro. Um grande salão escupido em barro. De lá, dava pra ver papai lá em cima jogando o barro para baixo. Ele nos viu e acenou. Falou – Fiquem por aí mesmo para não se perderem.

Ficamos, era um salão central com uma saída que dava tranquilamente para uma carroça de burro passar. No centro tinha um buraco fundo onde tinha água, mesmo sendo uma tarde de sol. Água de chuva acumulada possivelmente. Fomos de volta até papai, corremos a caminho dele, só que não encontramos.

Pronto!!!

Foi o suficiente pra me deixar com medo. Olhava para aquelas paredes enormes, já quase chorando. Sandra me segurou pelo braço. Acho que é por aqui. Pegamos outro caminho. Não chegamos a papai, mas vi o caminho largo que dava no salão. – Vamos por aqui. – Pronto. Estamos no salão de novo. Papai disse: – Me esperem aí! Ficamos lá. O sol, já frio, papai chegou com o carro de mão cheio de barro.

– Vumbora!

Depois do passeio e do susto, pensei o quanto o barreiro era bonito. O quanto os homens devem ter trabalhado para construir o Canyon e quantas casas de taipa foram construídas com todo aquele barro. Hoje o Barreiro de Tota está desativado, fechado por fazer parte do parque das dunas, como área de preservação ambiental. Um espaço com cerca de 500 metros quadrados.

Ninguém usa mais barro em construção. Ficou só a lembrança do barreiro e das aventuras vividas das várias visitas que fizemos lá.

quinta-feira, 3 de março de 2022

A história de mãe Luiza

 


Meu pai me contou uma história e a mesma contei para meus filhos. É a história de uma mulher que era casada com um pescador, morava num barraco em frente a Praia do Bote (hoje Praia de Miami). ela era muito pobre de dinheiro, era bem-disposta e forte mas não tinha filhos. O marido, um dia, foi pro mar sozinho com sua jangada e nunca mais voltou. Ela continuou sozinha em seu barraco esperando seu amor.

Ela era boa. Dava água para os pescadores que deixavam seus botes na praia, em frente a sua casa. Tratava e cozia os peixes trazidos pelos pescadores que eram amigos de seu marido e nunca a desrespeitaram. Muito pelo contrário. Quando levavam seus filhos para aprender o ofício da pesca, ensinavam-nos a respeitá-la é chamá-la de mãe.

Mãe Luiza era negra, magra, altiva, não levava desaforo e não aceitava bebidas em sua casa. Ela gostava de receber as pessoas em casa, esposas e filhos dos pescadores. Depois por volta dos anos 1930, começaram a chegar pessoas com crianças pequenas que vieram ao litoral à procura de trabalho e comida. Eram os refugiados da seca. Chegavam sempre com crianças nos braços e um pouco de farinha no bornal. O suficiente para ela, que sempre foi uma boa pessoa, fazer um pirão com os peixes que eram fartos na época e dar para eles se alimentarem.

Era estranho sair de um lugar como o sertão daquela época, sem comida nem água, tudo seco e chegar em Natal com seus palacetes, uma floresta bem verdinha e ainda encontrar pessoas como mãe Luiza, que tinha prazer em ajudar, além de um lugar vizinho para quem quisessem montar um barraco para morar. Para ela seria um privilégio ter vizinhos por perto, enquanto aguardava seu marido voltar do mar. Como as crianças da época tinham o hábito de pedir a bênção, todas que iam chegando, eram apresentados a mãe Luiza e pediam a bênção em um lugar para descansar, enquanto os pais conseguiam algum recurso para viver.

A maioria dos refugiados conseguiram emprego e se fixaram na cidade. As mulheres e meninas iam trabalhar nas casas de família (mais abastarda) e os maridos de jardineiro, motorista, porteiro, encanador, eletricista, pintor... Mas quando chegava a folga semanal, diziam: – Vamos para mãe Luiza, tomar um banho de mar e dar a benção a ela.

Depois de envelhecer, mãe Luiza se tornou uma vizinha útil, daquelas que cuida das crianças para a mãe trabalhar, que faz um chá para quem está doente, acende a vela para o morto e fazia parto, já que não existia SUS. Ela morreu pouco antes da grande invasão dos anos 50, quando foram construídos muitos barracos e botaram o nome do lugar como Novo Horizonte. Os moradores nunca se acostumaram a chamar assim, se referindo sempre ao lugar como “casa de mãe Luiza ” e depois apenas mãe Luiza.

Em 1958 foi dado ao lugar o nome de bairro de Mãe Luiza. Homenagem do prefeito Djalma Maranhão a essa guerreira bondosa. Que sua alma tenha, enfim, encontrado paz e seu amor lá no céu onde ela merece estar.

Essa é minha forma de contar a história dela. Esse é meu ponto de vista como mulher e nascida neste bairro.

Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges

terça-feira, 1 de março de 2022

Feijão duro na queda, só os fortes entendem


Em meados dos anos 80 houve uma superinflação. E uma das coisas mais caras era comida. Então surgiram vários programas que prometiam debelar a fome, mas eram só um engodo. Para dar satisfação de que estavam fazendo alguma coisa pela população. Teve um programa que vendia os itens da cesta básica a um preço mais baixo, mas era comida que hoje se chamaria facilmente de ração. Meus pais chegaram a comprar mas, realmente, não prestava. A farinha de milho vinha com gurgui (gorgulho), o arroz era de péssima qualidade e o feijão era a estrela principal dessa cesta, pois na época todos comiam muito feijão. Era o principal alimento das famílias.

O feijão-preto foi apelidado de “Duro na queda” (que era um seriado de TV de um dublê de cinema, que passava na época), mamãe comprou para economizar e pasmem o feijão passou 2 horas na panela de pressão e simplesmente saiu cru, foi uma lástima. Ela, chateada pelo feijão não ter cozinhado, reclamou do alimento, botou mais água e pressão de novo. Chega a panela sofria, deu meio dia, ela com ódio, já faziam 4 horas que o feijão estava no fogo, abriu a panela. As carnes já tinham se dissolvido mas o feijão estava levemente cozido. – Vamos comer assim mesmo! – Comemos aquela papa de arroz e o feijão duro. A mistura na semana toda era kitute bovino ou sardinha, mistura só no sábado e domingo.

Ficamos uma semana comendo aquele feijão e mamãe reclamando. – Esse mês o gás vai acabar e não acaba esse feijão. – Ela falava. A gente comia, mas era amargo. Sempre sobrava. Ela, a tarde, passava no liquidificador e fazia sopa de feijão botava macarrão e 2 caldos Knor e pronto. Aí a gente comia com gosto.

Teve também a “papa do padre”. Era uma mistura nutricional destinada a famílias de baixa renda, com crianças pequenas e risco de desnutrição. Era entregue na igreja por isso o apelido de “papa do padre”. Era muito gostosa, deliciosa, sabor baunilha e chocolate. Recebíamos vários pacotes. Lá em casa o que não faltava eram crianças. Além da papa, tinha a sopa, que já vinha pronta. Era só misturar com água, botar no fogo, mexer levemente e Já podia tomar. Outra delícia.

Teve o programa “peixe para todos”, que prometia peixe de qualidade a preço baixo. Mamãe se inscreveu. Vendia os peixes e repassava o dinheiro para o estado. Vinha um homem bem-vestido buscar o dinheiro e fazer o novo pedido de peixes. Quase não dava lucro, mas, era bom ter peixe todo dia em casa. Acho que comíamos o lucro todo.

Por último e mais importante veio o programa do leite, aí sim. A gente recebia todo mês uns ticket e trocava por leite e pão na padaria. O problema era as grandes filas para retirar o leite. Mas era bom ter leite em casa. Comíamos com cuscuz, tomávamos com café, fazia arroz de leite, fora as papas feitas para os pequenos, mas que sempre sobrava uma raspinha para nós os crescidinhos.

Foi uma época muito difícil. A fome é a pior sensação que alguém pode ter. A alimentação é um direito da população e deveria ser a principal preocupação do governo. A fome é urgente.

Na minha casa todos os meses era feita uma grande feira, a feira do mês. Em geral era comprado entre 15 e 30 kilos de feijão, mesma quantidade de arroz e açúcar, Uns 15 pacotes de café. Era uma feira grande. Pouco sobrava para biscoitos e iogurte mas todos os meses papai fazia questão de comprar uma bandeja de iogurte, 2 pacotes de biscoito recheado e uns lanchinho de biscoito com goiabada.

Quando chegava em casa com a feira a gente ia arrumar as compras na dispensa e procurar o que tinha sido comprado de bagana (assim eram chamados os lanches). Ao achar, deixávamos separados. Mamãe torava a bandeja de iogurte e dava um potinho para cada, uma delícia. Os biscoitos recheados ficavam guardados e os lanchinhos eram dados um a um pra cada, durante o dia. Era o melhor dia do mês. Só de abrir a geladeira e ver tudo cheio de comida era uma sensação maravilhosa.

Texto: Sonia Borges - Instagram: id.sonia
Revisão: Lula Borges

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