segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Quem tem medo de bicho-de-pé?

Lá no morro tínhamos um grande problema a infestação de parasitas: piolho, carrapato e o pior, pulga-de-bicho. Esse era o terror da minha infância. Pegar um bicho significava que além da coceira terrível, tinha o bicho em si, que ficava incrustado nos cantos da unha do pé principalmente, mas podia se alojar em qualquer parte do corpo e que era tirado com o auxílio de uma agulha, quando as mães resolviam fazer a limpeza nos pés das crianças. Dava para saber na outra rua. Era grito que não se acabava mais. O irmão mais velho, em geral, segurava os mais novos e a mãe com a agulha começava a espetar os dedos sem técnica nenhuma. O importante era retirar os bichos. Lembrando que cada casa tinha, em média, 5 crianças e, pelo menos, um cachorro e um gato. Então era ambiente fértil para esses parasitas.

Lá em casa a gente era proibido de ir pra fora sem chinelo. Então, no geral, pegávamos pouco bicho-de-pé. Mas quando eu pegava pedia pra minha irmã tirar. Ela tirava sem doer.

Um certo dia uma vizinha deixou o marido que batia nela, foi lá pra casa chorando pedindo pra mamãe ficar com 2 filhas dela, que ela ia levar a mais nova que ainda mamava. Eu lembro do cabelo da mulher. Muito liso e gorduroso, sempre que a vi estava com o cabelo solto. Era a coisa mais bonita nela. Parecia uma cigana sempre com saias longas, um monte de bijuterias que ganhava das patroas e um dente de ouro que, na época, era moda. Eu achava um nojo aquilo dentro da boca. Mamãe aceitou ficar com as duas meninas até ela voltar.

As meninas eram magrinhas e tinham cabelo como o da mãe liso e gorduroso. Mamãe botou o almoço normalmente, como todos os dias. Elas não comeram. Ficaram quietas, de pé num canto de parede. Mamãe chamou elas e pediu pra mais velha sentar num tamborete. Ela sentou com dificuldade. Mamãe achou estranho, ofereceu suco de Ki-suco, elas tomaram de pé.

Mamãe disse “vamos tomar banho, vocês vestem os vestidos de Soninha, que deve caber direitinho”. Elas começaram a chorar dizendo que não iam tomar banho ali naquela casa. Mamãe disse “então voltem, vão ficar com o pai de vocês”. Elas foram tomar banho. Aí o segredo delas. Mamãe, como fazia com a gente, colocou uma banheira no chão tirou a roupa da mais velha e percebeu que ela tinha diversas feridas no corpo, principalmente nas pernas, com bicho geográfico, além de bichos nos pés e nas mãos. Começou a lavar os cabelos e era piolho saindo de todo tamanho. Ela enxaguou o cabelo da menina e pegou a menor. Aí foi o cúmulo. Tinha bicho-de-pé em todo o corpo, uma inflamação no umbigo e a cabeça estava ferida também. Mamãe terminou o banho enrolou elas com um pano de saco de farinha, que era usado na época como toalha. Parou e ficou olhando para as duas.

Elas levou um certo tempo até dizer “vou na creche com essas meninas”. Aí foi minha vez de chorar. “como assim ela ia levar elas, será que ela não ia embora também como fez a mãe delas?”. O jeito foi me levar junto. Elas com minhas roupas e com minha mãe. Chegando no posto de saúde foi direto para a urgência. Esperamos até o médico chamar “dona Josefa tá sentindo o quê?”. Mamãe disse: “Na verdade o atendimento não é pra mim, é para essas duas crianças. Dê uma olhada nelas”.

Eu fiquei sentada na cadeira de metal olhando mamãe brigar com o médico devido as meninas não terem documentos e ela dizendo que ele tinha que atender, ele reclamando porque elas eram indigentes (era assim que chamava quem não contribuía com o INPS naquela época). Mamãe, brava “bote a consulta no meu nome mas olhe essas crianças!”. O médico, a muito custo, botou a pequena na maca. – Essa menina tem que ser internada, ela tem bicho-de-mosca na cabeça e no umbigo e esses bichos-de-pé tenho que tirar tudo e fazer antibiótico. – Foi pra mais velha disse: – Essa tá com infestação de piolho e bicho-de-pé. Está desnutrida e também vai ficar internada. Vai ficar como sua responsabilidade. Se a senhora não vier amanhã eu chamo a FEBEM.

Mamãe assinou um papel e antes de sair sem as meninas, me mandou levantar da cadeira e disse “essa aqui é minha filha, eu jamais deixaria um filho meu chegar a essa situação”. E começou a chorar. O médico olhou pra ela e pra mim e disse: “leve sua mãe pra casa e deixe com a gente!”. Passou a mão no meu cabelo. Fomos pra casa.

No dia seguinte, quando acordei, a menina mais velha estava lá. Cortaram o cabelo dela, estava com os pés enfaixados, tinha também umas roupas novas que deram lá no posto. Estava limpa, cheirava a esparadrapo. Fiz amizade com ela, se tornou uma terceira irmã. A mais nova ficou internada alguns dias. A rede dela ficava do lado da minha. Comíamos juntas, tomávamos banho juntas, só nos separávamos quando eu ia para o jardim de dona Arlete. Depois a gente brincava de boneca até anoitecer, jantar e assistir novela até dar sono. Como ela não podia ir pra fora, eu ficava com ela dentro de casa.

Com uma semana mamãe foi buscar a menor. Tinha um curativo no umbigo e a cabeça raspada. Mamãe subiu o morro com ela nos braços pois ela não podia ter contato com o chão pra não pegar bicho de novo. Confesso que não reconheci a menina. Estava gorda e careca, com roupas bonitas e com um ar de alegria. Bem diferente de quando chegaram. Comiam de tudo e tomavam o remédio sem reclamar.

Passado uns dias a mãe delas voltou. Tinha arrumado uma casa pra ficar com elas. Agradeceu a mamãe pelo cuidado e foi embora levando as duas. Elas não choraram, só deram tchau. Eu fiquei órfã de duas irmãs que já considerava minhas, mas elas ficaram bem. Eu por outro lado não. Quando elas foram embora, mamãe fez uma limpeza geral na casa, lavou com sabão em pó e depois fez uma faxina na gente. Ninguém tinha pego piolho, mas eu peguei um bicho. Dinho me segurou “pronto mamãe pode tirar”. Eu gritei e acho que podiam escutar da outra rua.

Texto: Sonia Borges - Insta: id.sonia
Revisão: Lula Borges

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Bacural × arara: quem perdeu fomos nós


Bacural é um pássaro noturno, mas na minha infância era um dos apelidos mais utilizados por meio de chacota em quem votava no PMDB. Minha mãe era da torcida do desse partido político e papai era PDS. O apelido era arara. Era uma briga sem fim esse negócio de política. Mamãe botava um pôster de Aluísio na frente de casa, papai botava outro de José Agripino. 

Tinham pessoas na rua que ficavam sem se falar, outros na bodega na hora de comprar o pão discursaram em favor de um dos dois. Eu não entendia nada, pra mim era tipo uma torcida organizada. Não entendia que daquilo dependia nosso futuro.

Pois bem. Fomos morar em Morro Branco e lá política era diferente. Ninguém falava, não tinha a bodega de seu Leó, onde se faziam apostas e a palavra bacural saiu da minha vida. Nesse bairro tínhamos poucos vizinhos, falávamos com pouca gente. Até que, um dia meu tio, que tinha uma mira certeira, derrubou um camaleão ou tijuaçu (um tipo de lagarto de médio porte, também conhecido como iguana) do pé de tamarindo da casa vizinha que estava fechada. 

Ele derrubou o camaleão, tirou a pele num tipo de fogueira e depois foi feito como galinha torrada, estava gostoso. Ao andar pelo terreno a tarde, observamos uma coruja no chão. Ela era pequena, feia, cinza, os olhos esbugalhados, o bico pequeno, mas, quando abria o bico, tinha uma boca grande horrorosa dentro. Sandra se apaixonou por ela “mas é bonitinha!”.

Quando foi mostrar pra mamãe ela falou logo, tira isso daqui menina, isso é ave de mau agoro! É um bacural! Nós fingimos que botamos fora mas não botamos.

Ficamos com ela, depois de muitas bicadas, fizemos uma papa de leite com farinha e demos pra ela. Sandra arranjou um jeito de botar ela pra dormir. Ela não queria de jeito nenhum dormir. Ah sim!!! pra gente, ela era uma menina coruja. Virava a cabeça todinha como se rodasse. Era muito engraçado.

Passamos o dia brincando. Não sabíamos se era adulta ou bebê. Sandra tinha 10 e eu 8 anos. Conseguimos passar o dia com ela. Ela ficava fechando os olhos e confesso que com olhos e bico fechado eu até a achava bonitinha. Ao acordar, antes de ir pra escola, fui olhar a coruja no ninho que Sandra tinha feito. Nada. Acordei ela. – Sandra a coruja sumiu. Fui embora para escola e esqueci da coruja.

O tempo passou. Um dia, enquanto botávamos meu irmão Léo para dormir, escutamos um barulho em baixo da cama. Dinho foi lá baixo da cama e dias depois ela estava lá, linda... quer dizer feia. Dinho disse:

– Essa coruja ainda tá aqui? Elas não podem ficar no claro não, faz mal a ela vou deixar ela lá no pé de caju do quintal. Elas comem ratos e são boas para a natureza. Dinho era uma enciclopédia ambulante.

Ficamos passadas quando ele, com cuidado, botou ela num canto bem escurinho do cajueiro e ela simplesmente voou, foi embora. Nem agradeceu nosso cuidado. Na verdade acho que quase que a gente mata ela com aquele leite com farinha.

Depois José Agripino ganhou a eleição e tudo voltou a ser como antes. Até as próximas eleições quando começou tudo de novo. Pobres brigando por ricos.

Texto: Sonia Borges
Revisão: Lula Borges

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A TV na sala

 


Naqueles dias de criança bem pequena, a gente já tinha energia em casa. Papai trabalhando na CAERN, ganhava o suficiente para nos manter, com pouco luxo. No entanto, em um domingo, Dinho (meu irmão mais velho) desceu o morro para Assistir os trapalhões. Ficava na janela da casa de um pessoal que morava lá em baixo. Só ele ia, já era grandinho, voltava sempre nos contando o quanto era divertido. Eu nem ligava, não entendia muito como funcionava esse negócio de televisão.

No entanto, nesse dia, Dinho chegou triste, tirou suas opercatas (alparcatas = sandálias) e se deitou numa rede. Mamãe falou pra papai que achou que algum menino tinha batido nele. Papai já foi com tudo. – O que aconteceu Luiz, porque você está chorando? – Ele respondeu: – O pessoal fechou a janela não vai dar pra assistir os trapalhões. E começou a chorar. Papai pegou ele rapidamente e disse “Bote a sandália”, saiu com ele e voltou mais a noite com uma pipoca para cada filho e Dinho com um sorriso do tamanho do mundo. Tinha levado ele pro centro social lá tinha uma TV e uns batentes para assistir como se fosse uma arquibancada.

A noite toda até eu pegar no sono, ouvi papai e mamãe conversando sobre algo. Só percebia que ele estava bem irritado e mamãe tentando amenizar o ocorrido. No dia seguinte chegou papai com duas caixas grandes. Alguns homens ajudaram ele a carregar até em casa. Ele colocou a caixa maior em cima de um birô que tinha na sala e começou a rasgar o papelão. A partir de hoje filho meu vai assistir televisão aqui dentro de casa. Foi instalando a antena, ligou a TV na tomada e pronto estava lá, imagem e som.

Eu nunca tinha parado para observar uma televisão de verdade. Era uma caixa grande, de madeira com um vidro grosso e uns botões laterais. A hora que ligaram a TV foi na parte da tarde, nos sentamos no sofá para assistir, mamãe nem tirou o cochilo dela, estava passando Tarzan um filme de antigamente e, de repente, tinha um monte de crianças na janela para assistir. Papai mandou tudinho ir em casa botar uma camisa para entrar para assistir.

Todos se sentaram no chão de cimento vermelho queimado e depois que terminou o filme, foram saindo aos poucos. Mamãe chamou a gente para jantar antes que começasse a novela. Eu só levantei e fui jantar, não vi graça na televisão, nem em Tarzan. Fui, jantei e de repente uma procissão lá pra casa. Até as comadres da outra rua foram.

Mamãe mandou a gente se sentar no chão para dar o lugar do sofá para os mais velhos. Eu me chateei e fui pra cozinha. Quando, de repente, falaram “Cala-boca todo mundo que começou a novela!”. Eu fui ver o que era a novela. Fiquei parada na porta da sala. De repente surge uma voz de homem falando ESCRAVA ISAURA e surgiu a escrava linda com um vestido parecendo uma princesa conversando com um homem, chorando porque era escrava, eu me sentei pra ver aquele sofrimento. Outro homem, do mal, dizendo que ela era dele e a música era sofrida: vida de negro é difícil lê lê lê...

Terminou.

Eu fiquei, “como assim como ela ficou?”, “O que vai acontecer?”. Não entendi. “Passaria a noite toda com seu vestido brigando pela liberdade dela?”. Depois começou o jornal. Todos saíram, voltei pro sofá perguntei a mamãe o que vai acontecer com a escrava? Mamãe riu. “Amanhã vamos saber isso. É uma novela, vai passando aos poucos, amanhã passa o resto da história”.

Começou um programa engraçado e depois surgiu um letreiro com uma voz que dizia: DESFAZ-SE NESSE MOMENTO A PROGRAMAÇÃO DESTA EMISSORA, BOA NOITE!
Eu fui dormir, agora com novos sonhos, o que será que vai acontecer com a escrava coitada, como minha professora dona Arlete me ensinou, vou rezar por ela.

Depois de um tempo, já acostumada com a TV, mamãe disse a televisão agora será colorida, comprou uma tela de plástico azul a um prestamista, fixou na frente da TV. Agora a gente via tudo azul. Era assim a TV colorida da minha infância. Era muito bom ter uma TV em casa.

Texto: Sonia Borges
Revisão: Lula Borges


sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Quando aposentamos as lamparinas: o dia que chegou energia no morro

 

As coisas aconteciam e viravam notícias espetaculares na voz de Ubiratan Camilo. Ele conseguia transformar qualquer ladrão de manga em um monstro. Era muito legal e assustador escutar o Patrulha da Cidade, na Rádio Cabugi AM 630. Ao meio dia começava a musiquinha:

"Hoje eu vou sentar a pua

E não ligo pra ninguém
Quem gostar muito obrigado
E não gostar me queira bem

Tá na hora da verdade
Ligue o rádio pra escutar
O que o povo tá falando
Eu também quero falar.

Quem tem rabo de palha
Não se meta comigo
É que mato tem olho
E paredes têm ouvido.” (Não conheço o autor)

Lá em casa tinha um rádio de pilha e todos os dias era sagrado escutarmos esse programa. Mamãe ligava o rádio para esperar começar e ia colocando o almoço da gente. Até que em um certo dia começou. O radialista gritava:

– Morreu um bebê queimado em sua rede porque a mãe deixou uma vela acesa e saiu pra comprar pão no MORRO – Essa parte ele gritava – de Mãe Luiza. Ao chegar em seu barraco a mulher se deparou com as cinzas do barraco de palha. O bebê morreu queimado!

Aí ficou falando um monte de coisa, chamando a mãe de irresponsável, como se fosse intenção da mulher. Mamãe desligou o rádio, continuou botando o almoço da gente. Parou um pouco e começou a chorar. A gente não entendeu, no início, o porque. Como assim desligar o rádio? Na hora do almoço tinha que ter som. Mamãe sentou-se e chorou copiosamente como se estivesse com uma dor muito forte. Dinho (meu imão mais velho) perguntou: “Mamãe acabou as pilhas? A senhora tá com dor de dente?”. Ela respondeu: “não, hoje vamos ouvir outra rádio.” Ligou novamente o rádio e botou noutra emissora. Que tinha música.

Ela continuou chorando, mas não dava mais pra ouvir. A tarde, depois do cochilo fomos para calçada. Eu sempre ficava perto dela, era uma tarde ventilada, ela mandou me sentar num banquinho para catar piolho. Eu nunca tinha, mas ela gostava de ficar passando os dedos no meu pouco e fino cabelo. As amigas dela chegaram começaram a conversar sobre o ocorrido no rádio. Mamãe disse:

– Nem me lembre comecei a chorar, lembrei quando estava na frente da casa, pegando capim pros mocó (preá) e deixei Paulinho na rede e a varanda (pormenor bordado na lateral da rede) pegou na lamparina e pegou fogo.

– Luiz (Dinho), com 7 anos, meu Deus, correu e pegou ele da rede. Ainda se queimou um pouco mas, graças a Deus, quando eu entrei, Paulo estava no chão e Luiz com um caneco de água jogando de copo em copo na rede. Eu tirei a rede e joguei no quintal, hoje eu estava pensando nisso quando Ubiratan – Como se o conhecesse – estava falando da mulher, chorei muito por isso.

Aí eu entendi o choro dela.

No dia seguinte parou um caminhão na rua Camaragibe de frente a Ari Barroso, minha rua, com um monte de postes em cima e um monte de homens também. Eu estava sentada na ponta da calçada, fiquei observando os homens, fortes iam tirando de poste em poste, outros iam fazendo um traço de cimento como papai fazia também, só que muito grande e com brita. Dois homens cavavam buracos e uns 4 pegavam os postes do caminhão e iam colocando do lado de cada buraco. Do outro lado da nossa rua, na João XXIII parou uma Rural, um tipo de carro antigo, com muitos fios e pequenos pedaços de caibros pintados de amarelo desci o morro para olhar, todas as crianças estavam loucas, pulavam corriam os pais concentrados nos postes.

Aos poucos os moradores foram começando a ajudar logo era uma mistura de gente colocando os postes que logo todos eles foram colocados chegando a rua João XXIII onde ligaram a energia. Chegou lá em casa um homem com uma prancheta todo arrumado, explicando do programa "pau amarelo" do governo e do que era preciso para o cadastro. Resolveram em poucos minutos. Outro senhor ia passando e instalando pedaços de caibros pintados de amarelo nas paredes das casas e ligaram um disjuntor. Papai correu para comprar lâmpadas e fios. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mamãe com um monte de mulheres conversando falou: “foi preciso um bebê morrer para eles trazerem os postes”. Papai concentrado ligando os fios um no outro "Esse é positivo…".

A noite foi chegando e de repente as luzes dos postes acenderam. Era o grito ÊÊÊÊÊÊÊÊHHH! Acenderam também as luzes dentro de casa. Outras casas, mesmo com o pau na parede, não tinham puxado a energia para dentro, pois não tinham dinheiro para comprar os fios.

Aos poucos fomos nos acostumando com a eletricidade e fomos deixando as lamparinas jogadas num canto do armário. Progresso vindo para o bairro.

Texto: Sonia Borges
Revisão: Lula Borges

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Onde eu morava em Mãe Luiza


Bem, na infância eu morava na casa mais alta do morro mais alto de Mãe Luiza. Tinha uma vista panorâmica dava pra ver do farol até o forte dos Reis magos. Era a rua Ari Barroso, a casa era de tijolos e o alicerce foi feito com pedras da praia que papai trazia, todos os dias quando vinha do seu trabalho no Sesc e comprava quando podia também das pessoas que iam buscar e vendiam essas pedras. Os tijolos eram deixados no pé do morro até onde o caminhão podia chegar. 

A casa foi crescendo aos poucos; no final ficou 2 quartos, sala, cozinha e 2 banheiros um era no quintal. Se tornou um bom lugar para morar, era uma casa de piso de cimento queimado vermelho brilhoso. Mamãe sempre encerava e ficávamos dando o brilho com pequenas flanelas feitas com pedaços de roupas velhas. No final era brilho puro. Depois nos deitávamos naquele piso bem friozinho. Não tinha luz elétrica então mesmo que tivéssemos dinheiro não dava pra ter enceradeira.

O grande problema de lá é que não tinha água encanada. Tinham que ir buscar lá embaixo ou no chafariz que ficava próximo ao antigo Pop Clube. Com o tempo, a água foi encanada em toda avenida João XXIII e ruas mais baixas mas não chegava lá em casa. Então papai foi lá no meio do morro de nossa rua, furou o cano, botou uma torneira e pronto. Tínhamos água todos os dias. Os vizinhos aplaudiram pois era muito sofrido andar tanto para pegar água. 

Ainda tinha a fila, pegávamos com pequenos baldes de tinta e os adultos com latas que também eram de tinta, grandes e quadradas. Colocávamos uma lata atrás da outra e ai de quem furasse a fila. As mulheres equilibravam na cabeça aquelas latas. Papai fez uma cisterna suspensa em casa que chamávamos de tanque. Deu certo. Agora tínhamos água todos os dias. Acabou o sofrimento.

Na frente de nossa casa tinha uma tosseira de palmatória. Na época era muito comum essas plantas nativas que serviam para segurar a areia. O morro não tinha muro de arrimo. As casas e barracos eram construídos de vários materiais: taipa, madeira, lona… ou tudo isso misturado. Cada pedaço de terra era aproveitado. Nas encostas se colocavam troncos e madeira fazendo uma barreira para impedir a areia de descer, mas ela sempre descia. Então o jeito era deixar as palmatórias e plantas nativas do lado ou em frente de cada casa.

Em frente a casa de seu Antonio Bacurau – ou Antonio Pé de Bicho - Tinha um lindo pé de castanholas foi quase nesse ponto onde papai furou o cano. Cada casa tinha pelo menos 5 crianças. À noite brincávamos de roda, esconde-esconde, tica e pular corda. Na verdade eu era muito pequena, era café-com-leite, como se dizia na época. Ainda lembro das músicas, era tudo cantado errado mas foi assim que a gente aprendeu:

Senhora dona cândida
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Quero ver a sua cara...

Que anjos são esses
Que estão me arrudiando
É de noite é de dia
Pai de nossa ave Maria.…

Isso a gente cantava segurando um na mão do outro enquanto a claridade do farol passava de vez em quando por cima da gente como se estivesse brincando de roda conosco. Não tinha luz elétrica no morro a claridade vinha da lua, das estrelas e do farol que, mesmo em noites escuras, clareava nosso cantinho.

Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Fuga para a praia, loucura de adolecente

 


Quando eu tinha 13 anos, minha irmã mais velha se apaixonou por um rapaz. Ela tinha 15 e ele 17. Ele também se apaixonou profundamente por ela. Os dois eram impulsivos. Um dia fugiram da escola no início da aula. Eu fiquei, assisti as primeiras aulas e, no intervalo, as colegas disseram eles não entraram para assistir aula.

Eu pensei logo em mamãe. – Ela vai nos matar. – Paralisei de medo. – E agora? O que eu faço? Não posso chegar em casa sem ela, como vou explicar? Mamãe é brava, tô lascada! – Resolvi fugir da aula. Subi a rampa da Escola Estadual Augusto Severo, peguei minha mochila e fui. Pulei o muro. O vigia nem viu. Sai. Passei por Petrópolis voando, cheguei em Mãe Luiza. Agora é procurar…

Sai andando rápido até chegar na casa do namorado. Estava fechada. Passei, subi na Rua Atalaia, fui na casa de uma colega que sempre íamos lá, nada. Subi na Camaragibe, fui na casa de uma tia que morava lá, nada. Procurei na casa dos amigos, ninguém viu, até que um colega falou que os viu descendo da Guanabara para a praia. Nossa!!! Corri. Desci uma escadaria do tamanho do mundo, com a mochila cheia de livros nas costas olhei na praia de Areia Preta, nada, fui até Miami, nada. Parei olhei, procurei, me escorei no parapeito respirei, me acalmei.

Eu ali, de pé, escorada naquele parapeito do belo paredão da praia de Miami, cheiro de maresia, eu vendo as ondas batendo lá embaixo, nos paralelepípedos que protegiam o paredão, algumas ondas mais fortes chegavam a salpicar água salgada em mim, sentindo o vento quente de meio dia, os surfistas descendo as ondas fazendo manobras; parei para observar o quanto tudo aquilo era majestoso. À minha direita, o morro da cruz, lindo, alto, imponente, difícil até de descer, subir então era para quem tinha preparo físico. Atrás o farol testemunha de tantas saídas e chegadas dos jangadeiros. Eu ali com os cabelos voando ao vento me dei conta da minha insignificância perante todo aquele cenário, decidi voltar pra casa, seja o que Deus quiser.

Subi a outra escadaria, mais alta ainda, depois subi a Guanabara em direção ao Barro Duro, onde morava. Ao chegar na escola Dinarte Mariz, minha irmã estava lá, sentada numa parada de ônibus, com o namorado, me esperando. – Menina, como tu demorou – Eu, queimada do sol, cansada de tanto andar, olhei pra ela e disse – Tu foi pra onde? – Ela disse – Fui na praia e depois vim pra cá te esperar, tinham 2 aulas vagas e as outras eu já passei de ano, não preciso mais assistir essas aulas.
Eu fiquei com ódio.

– Porque não me avisou?

– Ahhh, se eu avisasse, você não ia querer que eu fosse.

O namorado foi embora e nós descemos pra casa. Mamãe estava dormindo quando chegamos. Nem notou que nos atrasamos. Hoje fico pensando, com o uso do celular, nada disso teria acontecido. Minha irmã era impulsiva, forte, até um pouco agressiva, mas eu era completamente apaixonada por ela. Nossa principal preocupação era não levar uma surra de mamãe. Saudades dessa época.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Amigas para toda vida!

Logo que fui morar em Mãe Luiza não conseguia fazer amigos. Era uma criança bem tímida. Um dia, quando estava na casa de dona Helena com mamãe, de repente chega uma menina. Veio pra perto de mim e disse: “Você sabia que tem um pé de pitanga neste quintal?”. O quintal de dona Helena era enorme. Tinha várias fruteiras e ela tinha 2 filhos que não gostaram muito de brincar. Eu disse que não sabia, ela me puxou pelo braço e disse dona Helena “vou mostrar o quintal pra Sônia”.

Saímos correndo. Ela ao ver o pé de pitanga pegou um pau e derrubou um monte. Eu só olhava. Ela botou as pitangas na camisa e fomos pro final do terreno comer as pitangas. Ela tão feliz com as frutas e eu nem gostava muito de pitanga. Aproveitei para observá-la. Era muito magra, negra, cabelo crespo, dona de um sorriso que só ela tem. Perguntei o nome dela, ela me respondeu: “Nega”. Eu disse isso é apelido o seu nome mesmo, ela disse “Todos me chamam de nega”. Tem quantos anos? Ela disse “não sei, vou perguntar a minha mãe, depois te digo”.

Eu falei “Oi nega, meu nome é Sônia, quer ser minha amiga?”. Ela olhou pra mim dos pés a cabeça deu uma risada e disse nós já somos, afinal roubamos pitanga de dona Helena, juntas. Eu fiquei atônita, como assim roubamos?

Eu, católica, morria de medo de pecar. Nega era livre, não ligava pra essas coisas. Depois de comer as pitangas, enterrou as sementes e voltou no pé pra ver se tinha ficado folhas no chão, não ficou.

Quando a gente já vinha voltando vi mamãe e dona Helena falando “Essas duas nunca vão ser amigas, olha a diferença!”. Eu de vestido de manga tipo roupa de São João que era “moda” na época, Nega de short e blusinha sempre. Pois ficamos amigas sim. Ela era minha confidente e eu dela.

Sempre fugíamos para a praia, pra passear no morro, quando terminava a missa, íamos escondidas pro centro social. às vezes ela ia pro POP CLUB. Eu nunca fui. Tinha medo de mamãe descobrir. Um dia, já adolescentes, decidimos fugir para Bahia para ver o Carnaval de Salvador. Tínhamos 14 anos. Ela disse “Eu sei onde os caminhoneiros ficam, vamos lá e dizemos que queremos ir pra Bahia. Se ele disser que vai pra Recife a gente pega mesmo assim. De lá de Recife é mais fácil de ir pra Bahia. Lá eu tenho uma tia e fico na casa dela até o Carnaval, depois voltamos”.

Planejamos cada detalhe minuciosamente. Sonhávamos em ver o Carnaval de Salvador. Principalmente Chiclete com Banana, nossa seria um sonho. Mas acordei, desisti na última hora. Disse que não ia mais, que meus pais iam ficar preocupados e no dia seguinte depois que a mãe foi dormir nega fugiu. Foi pra Salvador. Kkkkk. De carona nos caminhões. O pai dela era camonhoneiro, então ela conhecia como a coisa funcionava. Não me perguntem, como.

Ela chegou na Bahia, foi pro Carnaval e depois ficou morando por lá uns 2 anos e eu aqui morrendo de saudades da minha melhor amiga da adolescência. Aos 16 anos, quando ela voltou, dei um abraço que quase consegui quebrar toda a saudade que senti por todos aqueles anos sem ela. Continuamos amigas até hoje. Eu sempre digo que a amo, que ela faz parte da minha vida, da minha história.

Essa é só mais uma forma de dizer o quanto ela é importante para mim. Que ela faz parte da minha história. Crescemos juntas, testemunho de tantas risadas e surras que nossas mães nos davam quando perdiam a paciência, porque “essas duas juntas nunca dava boa coisa”. Te amo Nega (Luciene) minha amiga querida.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Um passeio mágico pelo morro de Mãe Luiza


Antigamente era bem comum passear no morro. As pessoas iam buscar frutas, pegar lenha (madeira para cozinhar) ou apenas por diversão mesmo. Um dia dona Helena, ficou reclamando com o marido que estava com pouca vara na cerca e as galinhas estavam fugindo. O Marido dela disse

“Vamos no morro pegar vara?” Ela disse “Vamos! Vamos dona Zefinha?” (no caso minha mãe). “Vamos. Só assim levo os meninos pra passear”. Assim nos juntamos todos e fomos ao morro.

Lembrando que mamãe, com 5 filhos, dona Helena com 2 e o Marido. Subimos o morro pela entrada onde hoje é a sétima DP, Subimos um morro e descemos; fomos em direção do segundo; subimos até a metade. Aí nos embrenhamos na mata, aproveitando para pegar caju, maçaranduba e guagiru, que estava na época. Daí descemos num caminho bem estreito e como num piscar de olhos estávamos lá... Pra mim, como criança, o lugar parecia um lugar mágico.

Tinha uma árvore grande com uma copa muito frondosa. Ao redor dela tinham várias árvores também altas deixando o chão cheio de folhas mas sem mato. A luz da tarde entrava nas fresta entre as árvores trazendo uma cor amarelada que batia nas folhas, no chão e levava uma luz diferente quase um crepúsculo, só que embaixo da árvore grande. Eu fiquei ali parada observando toda aquela beleza enquanto os meninos já se penduraram nos cipós da árvore grande brincando de tarzan.

Tinham uns troncos de árvore velhos. Eu me sentei para contemplar todo aquele brilho. O solo de areia muito branca, com folhas desgastadas que trazia um cheiro um pouco parecido com chuva na calçada. Eu enfiei os pés naquela areia fofa, enquanto escutava o marido de dona Helena cortar as varas.

Depois caminhei um pouco entre as árvores com a sensação de que a qualquer momento iria encontrar uma fada, um duende, algo tão mágico que justificasse tanta beleza. Mamãe grita: – Vumbora! (A forma dela falar vamos embora) – Eu não queria voltar. O que justificava sair de um lugar tão lindo daquele? O jeito foi seguir a "turma".

Na entrada do caminho de sair dessa floresta eu ainda olhei pra trás e senti uma sensação única de que havia sim alguém naquela árvore grande. Era uma raposa o amarelo do pelo dela se confundia um pouco com o marrom das folhas no chão, mas o brilho dela era surpreendente e inigualável. Quase acenei para ela, mas, preferi seguir caminho junto com meus irmãos.

Texto: Sônia Borges
Revisão: Lula Borges

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Hoje não posso, estou de plantão

 

Nunca havia entendido porque tratam o hospital como sendo uma pessoa. Exemplo quando cheguei pra trabalhar no Hospital Walfredo Gurgel, o maior hospital de trauma do RN, conheci pessoas que falavam: “No Walfredo é assim”, “O Walfredo vai entrar em greve”, “Não se preocupe você está no Walfredo”. Eu fiquei realmente intrigada com isso. Era técnica de enfermagem e ali agora era meu emprego. Não conseguia entender como e porque as pessoas tinham esse amor tão grande por esse hospital. Eu vim de um hospital particular, trabalhava e recebia meu dinheiro no final do mês bem normal como deveria ser, aqui vai ser do mesmo jeito.

Cheguei pra assumir o concurso do estado junto com uma turma grande que havia passado. Falei com a chefia que me encaminhou ao CRO  (Centro de Recuperação do Operado), subi umas escadas junto com a turma, depois passei por uma rampa, peguei o elevador que quase não cabia todo mundo, passamos por um corredor, depois por uma porta, outro corredor, chegamos numa salinha onde tinha uma mulher que dava a roupa de centro cirúrgico, colocamos a roupa, pensei, “vou trabalhar no centro cirúrgico?”. Não. Como a enfermeira havia falado, eu fui com toda a turma para o CRO, que nada mais era do que uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva), só que tinham macas junto dos leitos de UTI, pessoas conscientes e orientadas junto de pessoas entubadas e com todo tipo de doença.

Fiquei ali na ponta do birô olhando aquela cena. Parada, quase em choque. Tinham pessoas com todo tipo de curativo. Na cabeça, na perna, no braço tudo lá, deitado e falando; do outro lado, no mesmo local os de UTI grave, entubados, com todo tipo de sequela que você possa imaginar. A maioria em coma induzido. Eram muitas bombas, monitores, fios e drenos era muita informação para um segundo só, sem falar no cheiro. O odor era uma mistura de xixi e halitose, eu nunca tinha sentido ou visto um lugar tão pesado.

O enfermeiro do setor veio, nos cumprimentou um a um, deu uma risadinha e disse: – Parabéns aos novos concursados e delegou um funcionário para cada novato. Eu peguei logo amizade com a menina que me recebeu. E como eu já tinha rotina de UTI, foi fácil pegar o serviço, fiquei ali mesmo naquele setor, o difícil era o trabalho em si. 

Ao chegar naquela noite ao plantão fiquei muito feliz por está com uma equipe maravilhosa. Equipe boa é quando tudo se encaixa; cada um sabe exatamente o que fazer e faz. Não espera, não pergunta, vai là, decide, resolve. Enfim... Tudo indo bem quando de repente começou um cochichado, um muído, um conversé sem tamanho. Fiquei lá esperando que a conversa chegasse até mim, não chegou.  Sentia que tinha algo de estranho no ar. Sai do setor, peguei o corredor que dava pro vestiário e ao passar percebi que as pessoas estavam agitadas. Eu entrei no vestiário, peguei uma maçã no armário e sai em direção a copa do centro cirúrgico. Vi uma maca parada em frente ao posto de enfermagem.

O semblante das pessoas que, ao passar pela maca, mudava ao ver o rosto do paciente. As pessoas ficavam aterrorizadas ao olhar para aquela figura. Fiquei mais curiosa do que já estava, afinal no Walfredo nós estávamos acostumados a ver de tudo. As coisas mais horríveis como grandes queimados a amputações traumáticas de grande proporção. Fique sem entender do que se tratava, então me aproximei do paciente por trás da maca observei. Mãos, normal. Pernas, ok. Tronco se não fosse o filete de sangue que agora dava para ver estaria tudo certo. Seria impossível imaginar o que viria...

O homem estava com o queixo pendurado, ou melhor, sem o queixo a língua pendurada fazia voltas, se colocando em cima do pescoço, os pedaços do osso dar mandíbula ficava a mostra, no melhor estilo exterminador do futuro. Fiquei ali com a mesma cara que meus colegas ficaram.

Alguém gritou: –  Foi um tiro de 12!  – Eu continuei ali olhando o que sobrara daquele rosto. A calota craniana íntegra, olhos com expressões de medo e dor, sem saber o que estava por vir. Acordei do transe. Olhei para o chão, como que envergonhada de ter passado tanto tempo na frente do rapaz. Fui a copa, comi a maçã. Voltando passei por ele de novo, dessa vez respeitosamente olhei pro chão.

A cirurgia foi um sucesso, foram colocados pinos no lugar do queixo. E puxado o que sobrara da pele, e feito um falso queixo com pele e músculo só Deus sabe de onde. Sobre como aconteceu, uns disseram que foi um assalto que atiraram nele e outros disseram que foi os "amigos se vingando de uma dívida de drogas”. O importante é saber que ate hoje essa foi a pior imagem que já vi. Tudo no Walfredo é difícil, é difícil ver pessoas morrendo. Mas é difícil também ver as que ficam, chorando seus mortos. A pior parte é quando falta insumos e sempre falta. Medicações como antibióticos é tão comum que tem médico que quando vai prescrever de bom humor grita: Qual antibiótico tem hoje? E a gente diz qual.

Como falei, trabalho difícil. Muitos pacientes para cuidar. Pouco pessoal equipamentos quebrados; do tensiômetro ao termômetro. Tinha época que tudo faltava. Um dia chegou-se ao cúmulo de faltar dipirona. Ai não aguentei gritei para o cara da farmácia... – Paulo eu quero uma Dipirona que meu paciente está com febre! Ele prontamente respondeu. – Vou mandar fazer uma de barro pra você! Que você é melhor que os outros. – Sai de lá da farmácia rindo da minha prepotência. Quando lembro ainda rio, por sentir falta do CRO com todos os seus personagens marcantes. 

Hoje consigo entender. O Walfredo sim, se torna um personagem na vida de quem trabalha nele. Mas só quem trabalha nele entende.  Hoje não trabalho mais lá. Sinto falta do setor. Estou em outro ambiente mais leve, mas não tão leve. Afinal estamos falando do Walfredo. 

Esse colega, Paulo, morreu pouco depois desse dia, em um dos leitos do Walfredo. Gostaria de deixar aqui, minha homenagem, meu carinho, e meu respeito a esse profissional. E a tantos outros que perdemos nesta pandemia.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Rex tentando assistir aula



Primeiro dia de aula na Escola Nossa Senhora Aparecida em Mãe Luiza. Acordei; tomei banho; penteei os cabelos; tomei café; minha farda, impecável, já pronta do dia anterior. Na época as meninas vestiam saias e uma camisa diferente da dos meninos. Pronto estava arrumada.

– Mamãe, tô indo, benção.

– Deus te abençoe.

Eu tinha 09 anos, era uma idade que, na época, as crianças iam sozinhas para a escola e eu já tinha ido à escola, sabia direitinho como chegar. Mesmo sendo longe não era difícil o caminho e como todo mundo no bairro se conhecia naquela época, não era perigoso.

Eu saí, junto com meu irmão menor, que também ia estudar na mesma escola, vamos! Fomos o caminho todo seguidos pelo nosso cachorro Rex, era um vira-latas. Preto e branco, porte grande, tinha um olhar doce. Tínhamos pego ele já adulto. Tinha sido abandonado numa mudança, era sempre muito limpo; nisso mamãe não descuidada. Um bom cachorro, até aquele momento eu não tinha o que reclamar dele, era parte da família, viveu com a gente grande parte das aventuras da infância.

Chegamos na escola. Não podia entrar. Veio um senhor e falou “só abre as sete”. Como não tínhamos relógio, ficamos ali na calçada mesmo, junto com outras crianças que estavam esperando. Entramos. Esqueci do cachorro. Fomos todos ao pátio jurar a bandeira (naquela época era obrigatório). Todos em fila. Passou um supervisor olhando o fardamento, tudo certo começava o hino: – Salve lindo pendão da esperança... 

Todos sérios cantando em fila o professor na frente observando. O meu era seu Severino, um senhor, branco, careca, alto, magro, sempre usando roupas sociais e sapatos bem engraxados, sempre muito educado. Terminado o hino fomos levados pelo pelo professor para sala de aula. Passamos de frente ao portão de entrada, Rex me viu passando baixou os olhos e grunhiu. Fingi que não vi, passei, subi a escadaria, sentei na carteira referente ao meu número na chamada.

Na sala o professor começou a explicar. – Teremos 4 matérias: Comunicação, Matemática, Estudos Sociais e Ciências.

Nesse momento Rex aparece na porta. Me vê. Vem em minha direção deita do meu lado, parecendo que estava em casa. Eu paralisei. Não conhecia o professor ou os novos colegas ou a escola e aquele cachorro deitado do meu lado com metade da sala em pé escorado na parede com medo, assim como o professor, assustados. De repente chegou o vigia, vermelho de raiva e cansado. Subiu a escada nas carreiras atrás do cachorro. Eu lá paralisada. A confusão estava armada. De repente surgiram mais três pessoas. Uma moça muito educada perguntou. De quem é esse cachorro? Silêncio total.

Eu ali, com medo de que alguém batesse nele e as crianças das outras salas já tudo vindo ver o cachorro. Pensei “O jeito vai ser dizer que é meu! E pronto vou assumir o B.O.

Nesse momento surgiu um rapaz magrinho, deu um pequeno assobio, passou a mão na cabeça de Rex e chamou “vem garoto, bora brincar”. Rex olhou pra mim como que pedindo autorização para sair. Saiu junto com o rapaz. Foi levado ao portão e foi colocado pra fora. Nessa hora todos os alunos gritando e aplaudindo o rapaz. Me levantei e fui o olhar da escadaria. Dava pra ver, ele do lado de fora do portão sem entender. “Como assim?” Ele me chamou pra brincar? Ele tinha umas expressões que dava pra entender direitinho o que ele estava pensando.

Voltei pra sala, sentei. O professor falou que era proibido levar cachorro para a escola. O sinal da merenda tocou todos descemos ao refeitório. Um copo de uma papa deliciosa e o assunto o cachorro que queria assistir a aula do professor Severino. Ri por dentro, pensando em estudar junto com Rex. Mas também pensei que poderia ser eu o alvo das gozações, então fiquei quieta com meu irmão tomando papa e torcendo para todos esquecerem do cachorro.

Terminou o intervalo, todos subimos para a sala, o professor pediu para fazer um desenho de como tinha sido as férias, desenhei a praia e meus irmãos. O sinal tocou, acabou a aula, entreguei o desenho, fui pra sala do meu irmão, voando. Peguei ele pelo braço “vamos!!!”. Corri. Sai junto com todos os outros alunos. Rex nos acompanhava. De tantos alunos, cada criança que mudava o caminho, ele continuava com a gente. Até chegar em casa. Quando cheguei em casa, parei de frente a ele e disse.

– Você não pode ir mais para escola, eu tive medo que batessem em você, ou de ficar conhecida como a menina do cachorro. Ia ser um ano infernal, Rex, a partir de hoje você está proibido de me seguir.

Conversava várias outras coisas com ele. Era um bom amigo. Era pra ele que eu falava que papai Noel não tinha vindo aquele ano de novo, era com ele que eu subia o morro do nosso quintal pra sentir o vento que vinha da praia, eu podia falar qualquer coisa pra ele e ele me olhando, como se entendesse tudo. 

Eu falei para mamãe o que aconteceu e pedi para ela deixar sempre ele preso antes de eu ir para escola. Às vezes ao sair da aula ele estava esperando, feliz, como dizendo: – Surpresa vim buscar vocês!

Era um bom cachorro. Morreu de velhinho no cantinho dele lá no quintal. Não corria mais e até pra comer dava trabalho. Eu tinha uns 12 anos. A principal coisa que lembro da morte dele é que mamãe chorou muito e minha irmã, que era sempre de boas com as coisas, quando chegou da escola que foi dito que ele tinha morrido caiu num pranto que eu nunca tinha visto. Ela chorou com todo coração.

O que eu senti com a morte de Rex? Um vazio, mas não chorei. Tinha a certeza que ele estava sofrendo demais e que agora ele tinha se tornado um lindo cachorro anjo, jovem de novo com toda a força e belas asas brancas.


Sobre sofrer dos nervos

Todas as vezes que se vai ao psiquiatra, a primeira pergunta que ele te faz é como você está?  E aprendemos a responder a essa pergunta com ...